Ouço na rádio, na TSF, o debate diário. Hoje, o tema é e educação. Na verdade o que se discute é basicamente a greve dos professores dos ensinos básico e secundário, convocada para hoje. Aparecem os sindicalistas, os professores que sustentam as visões corporativas da escola e, do outro lado, as pessoas que estão contra os professores por razões do tipo: eles têm mais férias do que qualquer pessoa neste país. O debate não tem o ânimo de um debate sobre caça e calçadores, ou sobre futebol, mas enfim, está razoavelmente animado. Deseja-se uma reforma para a educação e discute-se o grau dessa reforma.
Claro que há milhares de coisas que passam ao lado daquilo de que as pessoas falam. O debate de ontem, por exemplo, foi sobre a agricultura. Também ontem se escutaram os agricultores modernaços a falarem contra o ministro e algumas pessoas vulgares a falarem contra os subsídios que os agricultores recebem e uma data de gente a falar contra a política agrícola europeia.
Em Portugal, o intelectual comum (desde o que escreve em jornais ao que conversa no círculo restrito lá de casa) reclama reformas de fundo. É preciso fazê-las, diz. Urgentemente, acrescenta.
É estranho que não se veja que Portugal fez nos últimos 10 anos uma das mais profundas reformas que é possível imaginar. Portugal passou de um país de lavradores para um país de serviços. Isto tem consequências sobre a vida diária do mais comum dos cidadãos e sobre a paisagem física e até sobre o imaginário. Por exemplo, dificilmente se imagina o aparecimento de um escritor como Miguel Torga nos dias de hoje.