domingo, julho 23, 2006

Quarto nº 66

O Sr. Burroughs coloca uma maçã verde em cima da cabeça da Sra. Burroughs. Seguidamente, afasta-se dez passos para trás, estuda o ângulo, a distância, adopta aquela que lhe parece ser a melhor posição, encaixa o olho na mira, faz pontaria, destrava o mecanismo, diz não te movas agora meu amor e, sustendo a respiração, dispara.

- Já está, agora deixa-me só tirar um rolo a preto e branco, diz ele.

O ciclo chamar-se-à “Ceci c’est pas Magritte”.

sexta-feira, junho 23, 2006

Guerra e Paz

Enquanto leio o grande romance de Lev Tolstoi, escuto as notícias de Timor Leste. A excelente tradução de Filipe e de Nina Guerra para a edição da Presença merece a compra dos diversos volumes desta obra monumental. O livro 3 começa de maneira brilhante, com um ensaio sobre as causas da guerra entre a Rússia e a França. Tolstoi apresenta todas as causas normalmente listadas pelos historiadores e acrescenta mesmo mais algumas, em diferentes escalas, chegando ao lugar do homem comum, digamos, do mais anónimo dos sargentos. Mas sobretudo o que Tolstoi acrescenta é que as causas devem ser encaradas na sua complexidade, como novelos, simultaneamente simples e cegos. Ao escutar as recentes notícias de Timor, talvez também ali as coisas se passem desta forma. Que causas levaram a que as desavenças pessoais se tornassem conflitos abertos? Diferenças de carácter, diferentes bases de apoio social, diferentes formas de procedimento, um desemprego e uma pobreza extrema, interesses australianos, esquemas de duplicidade aprendidas durante a ocupação indonésia, o apetite pelos proventos do petróleo, a permanência dos poderes tradicionais e até um fundo supersticioso muito forte.

quarta-feira, junho 21, 2006

dança


matisse
Originally uploaded by daniel tércio.
no desenho cromático de Matisse.

quarta-feira, junho 14, 2006

Debates

Ouço na rádio, na TSF, o debate diário. Hoje, o tema é e educação. Na verdade o que se discute é basicamente a greve dos professores dos ensinos básico e secundário, convocada para hoje. Aparecem os sindicalistas, os professores que sustentam as visões corporativas da escola e, do outro lado, as pessoas que estão contra os professores por razões do tipo: eles têm mais férias do que qualquer pessoa neste país. O debate não tem o ânimo de um debate sobre caça e calçadores, ou sobre futebol, mas enfim, está razoavelmente animado. Deseja-se uma reforma para a educação e discute-se o grau dessa reforma.
Claro que há milhares de coisas que passam ao lado daquilo de que as pessoas falam. O debate de ontem, por exemplo, foi sobre a agricultura. Também ontem se escutaram os agricultores modernaços a falarem contra o ministro e algumas pessoas vulgares a falarem contra os subsídios que os agricultores recebem e uma data de gente a falar contra a política agrícola europeia.
Em Portugal, o intelectual comum (desde o que escreve em jornais ao que conversa no círculo restrito lá de casa) reclama reformas de fundo. É preciso fazê-las, diz. Urgentemente, acrescenta.
É estranho que não se veja que Portugal fez nos últimos 10 anos uma das mais profundas reformas que é possível imaginar. Portugal passou de um país de lavradores para um país de serviços. Isto tem consequências sobre a vida diária do mais comum dos cidadãos e sobre a paisagem física e até sobre o imaginário. Por exemplo, dificilmente se imagina o aparecimento de um escritor como Miguel Torga nos dias de hoje.

quarta-feira, junho 07, 2006

Alkantara - dia tantos do tal

O Festival Alkantara aí está, em Lisboa. Os mundos em Lisboa. Os mundos de Lisboa. Cruzamo-nos entre espectáculos, instalações e performances. Somos talvez um certo mundo. Por vezes inquieto, certamente cosmopolita e claramente urbano. Alkantara funciona como experiência alternativa da cidade. Não desta ou daquela cidade, mas da cidade enquanto paradigma da vida social dos homens. Alkantara é também uma ponte, antes de mais uma ponte entre culturas. Uma ponte sobre a cidade. Uma ponte suspensa sobre a cidade, ou uma cidade ponte - similar àquelas que Calvino imaginou - sobre a cidade de Lisboa. Essa ponte é maior do que esta cidade.
Alkantara é também uma oportunidade de ver dança e teatro e performance contemporânea. Coisas que dificilmente se arrumam em classificações exactas.
O programa está acessível por aí, em jornais, em agendas e entre bocas. E, claro, na net. Em http://www.alkantarafestival.pt/calendario.htm

domingo, maio 28, 2006

Fragmentos de Timor

Diariamente chegam-me pequenas notícias de Timor. São fragmentos de afectos que fazem doer mais as imagens que passam nos canais de televisão. Dos amigos que lá ficaram e cuja sorte me aperta o coração.
No resto do "mundo ocidental" as notícias a este respeito são praticamente inexistentes. Timor Leste já teve os seus minutos de fama, por alturas de 1999. Agora, é para esquecer.
Entre os fragmentos noticiosos, escutam-se e lêem-se enormidades: desde o primeiro-ministro australiano a dizer que os timorenses não sabem governar, até ao Miguel Sousa Tavares a dizer que deveriam ter ficado sob administração portuguesa. Não resta muito até aparecerem os que vão defender que Timor deva ser reocupado pela Indonésia.
Mas afinal qual é o problema profundo? Mais de 70% de desempregados. Qual é o povo que aguentaria mais de 5 anos sem ter emprego nem subsídio de desemprego?!
A isto há que acrescentar a raridade de quadros com formação superior e as diferenças etno-linguísticas. A isto há que acrescentar uma sociedade em que os estrangeiros ("malais") são os únicos que têm acesso aos super-mercados e aos hotéis e se comportam regra geral com uma enorme falta de respeito. A isto há que acrescentar os poderes tradicionais que se jogam na sombra dos tempos. E finalmente o petróleo...

domingo, maio 21, 2006

Roer as unhas

Há quem julgue que roer as unhas é sinal de algum desequilíbrio nervoso ou stress. Normalmente, são os adolescentes que roem as unhacas, e quando o fazem frequentemente chegam ao sabugo. Por causa disso, de vez em quando têm infecções nos dedos. Roer as unhas pode provocar inflamações no apêndice e contribuir para que se fique infectado com vermes intestinais. Pela descrição anterior, parece que a manobra roedora não é nada recomendável. Mas há uma outra ideia. Roer as unhas é o procedimento mais natural e mais vulgar que a espécie humana criou para impedir que as unhacas crescessem inutilmente. Antigamente (muito antigamente) queriam-se garras. Dava jeito para esgaçar a carne das presas e até para os combates corpo a corpo. Mas mesmo uma garra precisa de ser cuidada. E os dentes são o que de melhor existe para tratar das unhas (e das garras). Quando era garoto, e tinha o corpo mais flexível, lembro-me que levava o pé à boca para roer as unhas dos pés. Fazia aquilo que provavelmente todas as crias humanas fazem, desde há muitas centenas de milhares de anos. Roer as unhas. Podemos ter inventado substitutos dos dentes para tratar das garras. Mas - convenhamos - não há nada que chegue aos dentes e àquela sensação de ter o nosso próprio corpo entre uma coisa que morde e que também somos nós. A ligação entre estes dois aparelhos - as unhas e os dentes - é pois poderosa. É uma máquina orgânica que, se devidamente oleada com saliva, funciona prazenteiramente.