terça-feira, fevereiro 08, 2005

a estrela cubica

Asteroide ∑009-337
O homem-frederico coçou a verruga que tinha no queixo e hesitou. Devia, sim ou não, enviar a mensagem? Um contentor cheia de bruvilos luminosos atravessara o espaço vazio do universo, fora apanhado pelas energias antagónicas dos dois impérios e pairava agora na linha de fronteira. Se usasse o raio tractor, o contentor cairia em cheio em ∑009-337, o que não era nada, mesmo nada, conveniente. O homem-frederico imaginou os bruvillos a impestarem o asteroide com os seus corpinhos de melaço, a estrebucharem como vermes luminosos e a apodrecerem de cancro por todo o lado. A coisa ia feder. Não lhe apetecia nada ter que limpar o asteroide, mas já imaginava o que a sua patroa ia cantar: “BOM, MUITO BOM. SEGURA-OS AÍ QUE JÁ LHES TRATAMOS DA SAÚDE”. Toda a gente sabia como as baleias corcundas apreciavam um bom prato de bruvilos. Os bichinhos, ou será melhor dizer, as plantinhas, além de serem luminosos como poucos, cheiravam a peixe podre e rabiavam freneticamente desde que eclodiam até que secavam. Como eram mais ágeis e escorregadios que enguias e mais resistentes aos ácidos gástricos que a mais empedernida ténia, os bruvilos gritavam de prazer sempre que viam a bocarra de uma grande dama, que por sua vez os acolhia com incomensurável prazer. Parece que as baleias corcundas se deliciavam com a doçura lânguida dos bruvilos, embora o resultado para a saúde não fosse recomendável. Diziam as baleias que os bruvilos lhes amaciavam a voz, mas isso não passava de um pretexto ou de uma desculpa para a sua, delas, gula. O homem-frederico considerou em silêncio que quanto mais sofisticada era uma civilização, maior era a atracção por tanatos. Provavelmente, quando se conhece o Universo como as baleias corcundas conheciam, mais se deseja a morte. O homem-frederico hesitou, hesitou, e o contentor em equilíbrio instável entrou nos campos antagónicos de atracção, começou a desacelerar, até que ficou suspenso por cima do asteróide ∑009-337. Na verdade, não ficou exactamente suspenso, porque ao contrário do que supunha o senhor Ptolomeu, os corpos celestes não estão pregados num sistema de esferas celestes por muito complexo que este se imagine. O homem-frederico, que desconhecia as teorias de Ptolomeu, bem como uma porção de coisas para lá da tecnologia do raio tractor, programou-o no último instante com uma tal mestria e engenho que o contentor a fremir de bruvilos ficou efectivamente a flutuar bem por cima da sua cabeça, acompanhando como um cão fiel o movimento cósmico do pequeno asteróide. Que se fodam as baleias, pensou o homem-frederico, apreciando a luz coada do contentor. Evitara que o asteróide ∑009-337 se tornasse uma pocilga e, mais do que isso, para quem, como ele, das estrelas só conhecia pontinhos tremeluzentes, tinha agora uma estrela ali em cima, uma estrela cúbica, bem luminosa graças ao frenesim dos bruvilos. E, por outro lado, porra, se as grandes damas tinham os seus animais de estimação, porque é que ele também não podia ter uma colónia inteirinha de bicharocos freneticamente escorregadios... De certo modo, este pensamento tranquilizou-o. Para mais, encarar uma estrela cúbica era uma coisa sem preço, um arrebatamento único, que só um homem era capaz de sentir. Benditos bruvilos...