quarta-feira, abril 20, 2005

O “Museu”

Vou sempre ao Museu Nacional de Antropologia. Lá trabalha o David. Nasceu Cokwe. É “mais velho” mas respeita muito o meu trabalho. Acredita em mim e confia-me os segredos da mukanda. Acha graça quando eu o surpreendo com “coisas que aprendi nos livros” e com as palavras e nomes que tento pronunciar, o melhor que sei, na língua dele.
Yá... é ele, o Mwa Mudiandu, que me conduz pela galeria das máscaras falando-me delas, da simbologia, das cores, das formas, dos materiais, das texturas e mostrando-me com orgulho as inscrições que ditou para as placas de identificação.
É ele que me conta sobre as verdades, as mentiras, os medos; sobre o feiticeiro - nganga, o adivinho - tahi e o curandeiro - sambuki. É ele que, com a sua simplicidade, me ensina sem mo dizer, que a minha graduação seria impossível sem ele, sem o Kavula, sem o Kwononoka... sem todos aqueles que sabem por viver ou ter vivido, de verdade, aquilo que nós, os das Universidades, queremos provar em teses e artigos científicos, verdadeiros amontoados de letras em palavras rebuscadas.
Absorvo cada palavra, cada gesto dele, o gravador ligado com a pequena cassete que nem reparo quando o estalido assinala o fim da fita. E assim... a tarde fica escura. Já são seis e meia.
Há dias disseram-me para não apertar a mão a ninguém. “Por precaução, nunca se sabe!... O vírus Marburg é mortal.”
Esta tarde, quando cheguei ao Museu, o David esperava-me no pátio. Estendeu-me as duas mãos, uma sobre a outra em posição perpendicular (sem se tocarem no espaço reservado à minha mão que ele nem repara branca); o seu gesto habitual de respeito aprendido na tradição.
Não tive coragem de pensar no vírus. Deixei-me cumprimentar, como habitualmente pelo meu amigo de há muito tempo. Não limpei as mãos com álcool.
Sobre os Tucokwe, ele sabe (quase) tudo.
Sobre o vírus, apenas sabemos que mata.