terça-feira, maio 17, 2005

FrankEnstein E DrÁcula tambÉM amAM

A criatura de Frankenstein e Drácula foram trazidos à luz do dia no séc. XIX. Arrancadas das zonas sombrias do tempo, as duas criaturas têm extravazado os terrenos literários. Foi porém como personagens da literatura que elas nasceram - Mary Shelley foi a jovem criadora de Frankestein e da mente de Bram Stoker saiu o ameaçador vampiro. Não deixa de haver qualquer coisa de perverso no facto de uma jovem rapariga (Mary Shelley) se ter lembrado de uma criatura masculina tão repelente como a criatura que o cientista suíço constrói no seu laboratório – uma criatura que, sendo repelente, se revela de resto capaz de emoções sublimes, certamente mais sublimes do que as do seu próprio criador.
Vivia-se então, à data em que o livro foi publicado, a euforia de uma nova tecnologia - a energia eléctrica – que certamente constituía para a criação literária um excelente terreno metafórico dos desejos. Nessa época, os fluxos eléctricos tinham uma extraordinária semelhança com o fluxo dos desejos: eram essencialmente invisíveis, rapidíssimos, davam faísca, podiam unir ou desunir coisas… tal como os desejos… No romance, a criatura de Frankenstein foi concebida por assemblage de órgãos roubados a cadáveres – o que não bastava para fazer de Frankestein uma criatura de forma humana. O que lhe deu a primeira forma humana foi a misteriosa descarga eléctrica, isto é, a realização material, ou imaterial para a época, do desejo do seu criador, o cientista que dominava a tecnologia. Mesmo assim, a criatura já humana de Frankenstein era ainda um somatório de órgãos – um monstro. Porquê um monstro? Porque ostentava um excesso de visibilidade. Quer dizer, era por se verem as suas componentes orgânicas, por se verem os órgãos, que não deixavam ainda assim de ser humanos, que ele permanecia monstruoso. Então, a criatura de Frankenstein só podia livrar-se da sua condição de monstro, sendo menos visível, sendo menos uma colagem de órgãos e mais uma forma. A história da criatura de Frankenstein é, em parte, a da busca da invisibilidade - a criatura esconde-se, procura camuflagens. E é também a história de desejo de uma forma. Mary Shelley sugeriu a ideia de que a forma se realiza no amor, e portanto seria nessa busca que a criatura simultaneamente se realizaria como homem e se consumiria enquanto monstro.
Quanto a Dracula, é sabido que Bram Stoker se inspirou na figura histórica do príncipe cristão romeno Vlad o empalador para a concepção de terrível e cruel vampiro. Enquanto a criatura de Frankenstein é uma efabulação sobre a construção do humano, Drácula é uma efabulação sobre a desconstrução do humano. A história começa com um bramido terrível. Com efeito, Drácula vira-se contra Deus (de Quem era um campeão), quando encontra morta a sua amada; como é que Deus não protegeu uma frágil mulher, se ele tinha durante anos resguardado o território da cristandade das incursões sarracenas!? Ultrapassada a fronteira ética, Drácula torna-se um corpo parasita de outros corpos, de outros fluidos vitais, ele próprio resultado de uma primeira parasitagem, elo trágico numa cadeia interminável de contaminações. O sangue, aqui, funciona numa direcção contrária à electricidade de Frankenstein. É certo que é pelo sangue que os vampiros constróem a sua irmandade, mas também é pelo sangue contaminado que perdem a sua individualidade. O sangue desterritorializa o corpo. As mulheres que Drácula seduz/morde deixam de ter nomes e passam a ser ávidas e lúbricas vampiras. Tornam-se o desejo feito corpo, um corpo quase sem órgãos, onde ainda aparecem os caninos salientes como o último vestígio de visibilidade, já bem pouco humano, um corpo capaz de se transmutar noutros corpos, de certa maneira capaz de se diluir nas criaturas da terra nocturna. A ironia disto está no facto de Drácula deixar de ser humano por causa do amor – o rei dos afectos.
Portanto, num e noutro caso – tanto em Drácula quanto na Criatura de Frankenstein - é um afecto, o primeiro dentre eles, que orienta o processo narrativo de construção e desconstrução. Tornar-se vampiro é o preço que Drácula tem que pagar para poder atravessar os oceanos do tempo, na esperança de redescobrir o amor. Isto é, o Conde abandona a sua condição humana na esperança (mas também na incerteza) de um dia tornar a ser humano em glória.
Nestes dois livros, parece que o corpo inventa, na sua própria carne, o arco que leva das sombras à luz, e da luz às sombras. Entre Drácula, dependente do sangue dos vivos, e a Criatura de Frankenstein, criada por assemblage de órgãos de cadáveres, existe outra semelhança: ambos vivem nas margens do corpo. Ambos têm a “alma” doente, ou incompleta, na proporção em que os respectivos corpos estão em zonas de catástrofe. Fisicamente incompletos, o monstro e o vampiro vivem desalmadamente e movem-se, assim, nas margens da nossa contemporaneidade.