domingo, maio 01, 2005

Timor e Catolicismo

As notícias que chegam de Timor são um bocado preocupantes. Refiro-me às manifestações contra o poder político eleito – em especial contra o primeiro-ministro Alkatiri – por causa da disciplina de Religião e Moral no ensino público. O governo decidiu – e bem – que aquela disciplina, dada exclusivamente no âmbito do catolicismo dominante - não teria que ser obrigatória no sistema de ensino. Isto gerou um movimento de constestação “apadrinhado” pela própria igreja católica local. Os contestários exigem que a religião e moral CATÓLICA seja obrigatória na educação dos jovens timorenses. As manifestações que se prolongam teimosamente há algumas semanas tiveram há pouco mais de 24 horas um triste episódio de interrogatório e agressões a dois cooperantes portugueses apanhados no coração dos manifestantes. As autoridades eclesiásticas assistiram a tudo e no fim desculparam os agressores.
Como é que se chegou a isto?
É conhecida a importância que a Igreja católica foi ganhando no território timorense. Durante anos, a generalidade dos portugueses olhou com simpatia (lembram-se das orações no cemitério de Santa Cruz e do Nobel D. Ximenes Belo?) essa faceta da “cultura”, que nos igualava como “irmãos separados” por oceanos infindáveis. Além disso, dizia-se romanticamente que o catolicismo timorense se tornara uma religião de resistência à ocupação indonésia. Um Padre Nosso rezado em português tornava-se assim qualquer coisa de arrepiar.
Para quem, como eu, passou algum tempo (no meu caso cerca de dois meses e meio) em Timor, as coisas foram mudando de figura. Em primeiro lugar, todos nós (os professores que lá estavam em missão durante o ano 2000) tivemos que ceder uma parte das nossas aulas para as rezas iniciais e, em alguns casos, para as Avé Marias finais. Pessoalmente, procurei sempre manter-me à margem dessas manifestações de religiosidade. Mas isto seria secundário relativamente a outros episódios que fui presenciando: o ataque à mesquita muçulmana por católicos; o encerramento de um restaurante-bar em Baucau (por ordens do respectivo Bispo) porque as empregadas usavam saias por cima do joelho; e sobretudo o silêncio da Igreja relativamente aos abusos sexuais a que as jovens timorenses são submetidas frequentemente dentro de famílias supostamente católicas. O tempo em que estive em Timor não foi longo e muitas destas coisas têm a natureza das impressões. Também é verdade que estas impressões não anulam uma outra maior: a da doçura e da diversidade de um povo e a da beleza de uma terra.
Mas as outras impressões, somadas aos episódios recentes, levam-me a recear que Timor se torne um Estado-católico no século XXI. Na verdade, a cultura ocidental está sempre bastante pronta a acusar os regimes islâmicos de ausência de laicidade, e não vê o que se está passar com os novos cristianismos fundamentalistas. A democracia timorense é extraordinariamente frágil para suster estas tendências fanáticas. Alkatiri está lá – julgo que a fazer um bom trabalho – e o facto de ter sido eleito pela maioria do povo timorense é aquilo que lhe dá a autoridade para decidir esta coisa tão simples e tão justa que é a seguinte: quem não for católico não será obrigado a frequentar umas aulas onde se ensina que não há salvação fora de Cristo e onde se bate no peito de arrependimento e onde se listam os pecados.