quinta-feira, junho 02, 2005

das redes dos afectos

O desenvolvimento das redes de comunicações – com os sms, os mails, os chats – tem uma interferência sobre os afectos. Um dia, antes da descoberta dos telemóveis, entrei em casa de uma amiga que vivia em Barcelona e vi um papel afixado na parede. O papel dizia assim: um rio de lágrimas até Belém. O amor dessa amiga tinha partido para longe, para demasiado longe, num tempo ainda com redes de malhas largas. Hoje, a malha das nossas redes está a ficar demasiado apertada. O mais comum e pequeno dos afectos cai na malha desta rede com uma estúpida facilidade.
Por outro lado, e apesar de tudo, ao ler “À la Recherche du Temps perdu”, de Proust, ou o “Werther”, de Goethe, ou mesmo “Morte em Veneza”, de Thomas Mann, não posso deixar de notar a permanência do mesmo tipo de sofrimento. Em português, "paixão" também quer dizer sofrimento. A substância da paixão é basicamente a mesma, ontem como hoje. É talvez verdade que o contexto da sociedade burguesa, com os seus procedimentos de poupança e de investimento, tenha introduzido pequenas variações na forma da paixão. A paixão não é um jogo simples de que se possam escrever as regras. Ou, se tiverem que ser escritas, que o sejam da forma mais simples possível: como um jogo de bolsa, submetido às leis da oferta e da procura. Se eu te desejo muito, tu tornar-te-ás mais valiosa, porventura mais longínqua, certamente mais difícil de alcançar, porque não dizê-lo, mais cara. Se eu te digo que me é inimaginável viver sem estar ao pé de ti, tu afastar-te-ás, convencida de que desse modo me estás a fazer um favor, que é o de me libertar dessa estúpida dependência, dessa dependência de que tu, afinal, também padeces, mesmo que só às vezes, por pequenos períodos.