terça-feira, junho 28, 2005

álcool

O rapaz tinha cinquenta e um anos, o que fazia dele não exactamente um rapaz, mas sim um homem de meia idade. Agora, no círculo de amigos, todos fingiam que ele tinha qualquer coisa de heróico, por ter saído da pequena cidade, ou antes, por ter conservado uma frescura qualquer, um aroma que todos eles tinham perdido com o passar do tempo. Era curioso o lugar que o álcool ocupava nesse processo. O álcool roubara a frescuras dos anos a cada um dos três rostos que rodeavam o rapaz, embora fosse o álcool e apenas ele que mantinha o elo principal com o passado. O álcool era em certos casos a ilusão da juventude perdida e de outros lugares comuns. Mas o álcool era também uma névoa de consciência. A representação. Verem-se de fora, como outras criaturas. Homens de meia idade a verem-se como rapazes. Na verdade, todos eles se comportavam como rapazes. Especialmente este rapaz: no corpo de um homem de meia idade. Graças ao álcool, ele via-se, não na posição daquele rapaz, mas sim em oposição a esse rapaz que era ele, que se mantinha em silêncio, enquanto os outros, os amigos de antigamente, tinham envelhecido abruptamente, e falavam arrastado, com ele no centro.