domingo, agosto 14, 2005

O Riso de Baudelaire

Na mentalidade cristã, é comum identificar-se o "homem sábio" com o "homem sério". À letra, o homem sério é aquele que não ri, tal como o Deus cristão não riu quando fez os céus e a terra e as plantas e os animais e o homem. Pelos vistos, nem sequer se riu quando fez a mulher. A propósito do riso, e da dificuldade em o cristianismo o integrar no divino, Charles Baudelaire tem um belo texto, de onde extraio o seguinte excerto:
"O Homem Sábio treme por ter rido; o Homem Sábio receia o riso, assim como receia os espectáculos mundanos, a concuspiscência. Detém-se à beira do riso como à beira da tentação. Existe, portantto, segundo o Homem Sábio, uma certa contradição secreta entre o seu carácter de homem sábio e o carácter primordial do riso. Com efeito, aflorando apenas recordações que são mais do que solenes, faço notar, - o que corrobora perfeitamente o carácter oficialmente cristão desta máxima, - que o Homem Sábio por excelência, o Verbo Incarnaddo, nunca se riu. Aos olhos Daquele que tudo sabe e tudo pode, o cómico não existe. E no entanto o Verbo Incarnado conheceu a cólera, e mesmo as lágrimas.
(Baudelaire, Da Essência do Riso, ímanedições)