segunda-feira, setembro 05, 2005

Crónicas de um fumador




Sou fumador e não tenho papas na língua. Estou farto de não-fumadores nos restaurantes. Toda essa hipocrisia de dividirem os seres humanos nas categorias de “fumador”/ “não-fumador” dá-me volta ao estômago. Particularmente nos restaurantes onde toda a gente sabe que não existe nada que separe os dois espaços pelos quais se dividem as duas categorias e, como tal, uma coisa acaba sempre por acontecer: os não-fumadores incomodam na mesma. Fora com eles. Que fiquem na rua e comam take-away ou então encomendem pizzas pelo telefone. Acabou-se a tolerância. Passa a usar-se à entrada aquelas placas que dizem “nós ficamos cá fora” com desenhos dos Dálmatas, acrescentando um desenho humanóide com um maço de cigarros na mão e um xis vermelho por cima. Ou então, se querem jantar no interior do restaurante, passam a acender um cigarro sempre que o fumador da mesa do lado o pedir, naturalmente incomodado pela falta de fumo da mesa do não-fumador.
No outro dia estava muito bem a jantar numa tasquinha (enquanto comia, fumava e soprava o meu fumo em todas as direcções alegremente, como quem dá o que tem de melhor) quando subitamente, mesmo na mesa ao lado da minha, se senta um fulano novo e com bom aspecto, sem manchas nem na pele nem nos dentes, unhas impecáveis, rosto sadio, trazendo consigo o aroma da brisa fresca da manhã (copyright Calvin Klein, claro) e, ainda por cima, a mascar pastilha. Percebi logo o que se seguia. Pediu uma salada, trocou algumas impressões acerca do colesterol com o empregado que revirou os olhos na minha direcção, pediu uma garrafa de água (a maior que tiver e fresquinha, por favor), reorganizou todos os talheres depois de os inspeccionar minuciosamente à procura de manchas e depois… não fez mais nada. Ficou a olhar para a televisão sem som (José Carlos Malato em mute, graças a Deus), com as duas mãozinhas finas e limpas e bem-cheirosas muito arrumadinhas em conchinha ao lado do pratinho. Era um não-fumador! Obviamente.
«Desculpe lá, disse-lhe eu ao fim de uns minutos, importa-se de mudar de mesa.» A resposta que recebi foi logo com sete pedras na mão. «Claro que importo, estou muito bem aqui!» Engoli em seco trezentas vezes e voltei à carga. «Sabe, é que a sua ausência de fumo está-me a incomodar e eu estava aqui a tentar comer estas febras cheias de gordura…» «Se está mal, mude-se!», respondeu prontamente. «Mas eu estava aqui primeiro…», tentei eu. «Meu amigo, não o conheço nem a si nem a ninguém da sua família por isso não me chateie.»
(Faço aqui uma pausa para afirmar publicamente que sempre tive vontade de dar um pontapé na cabeça de um destes maníacos da saúde que estão convencidos que hão-de viver mais tempo do que eu só para a seguir dizer: vês, não fumavas mas depois cruzaste-te na rua com um maluco que te limpou o sarampo à biqueirada!)
«Oiça lá com calma, continuei eu pacificamente, estão aqui crianças que já fumam e pessoas idosas com os pulmões cheios de alcatrão, o senhor não acha que era melhor acender um cigarrito ou mudar de lu…» Mas fui novamente interrompido. «Era só o que me faltava. Estou-me bem nas tintas para as crianças e para os cangalhos velhos, eu não fumo merda nenhuma.» «Não precisa de ser desagradável, ninguém está a ser desagradável consigo.» Começava a faltar-me a paciência, quando o empregado interveio, dirigindo o discurso ao insuportável não-fumador: «Já não temos saladas, meu senhor, mas sugiro o entrecosto grelhado e a escorrer sebo que é um dos motivos pelos quais somos famosos no Ministério da Saúde. Hoje, deixe-me que lhe diga, está de se lamber a beiça.»
O fulano novo e saudável nem respondeu. Saiu, com a mesma velocidade com que entrara, batendo com a porta. Todos respirámos de alívio e houve uma senhora que exclamou de uma mesa ao canto, onde fumava cigarrilhas com os netos: «É este o país civilizado em que vivemos!» Pude comer a minha refeição descansado, mas, ainda assim, o não fumador deixou para trás um irrespirável rasto de ar impoluto.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

"E, ao sétimo dia, Deus criou o Homem... A alguns destes homens recém-criados, que tinham andado a fazer a vida negra aos outros, disse-lhes: a vocês, chatos de merda por natureza, está confiada a missão de se tornarem fumadores e de empestarem o Mundo com o vosso fumo e mau-humor. Vão, e façam inclusivé posts na internet que sirvam para trazer um pouco mais de ódio entre todos."

Génesis 12:4.

Especula-se muito sobre a razão para esta atitude aparentemente demente de Deus. Mas há quem diga que, quem conseguir ter um amigo fumador, não precisa de prestar mais provas para entrar no Céu...

9:22 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

amen!

2:05 da manhã  

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