Sábado, Fevereiro 12, 2005
Depois da tentativa frustrada de envolver Cavaco Silva, Cadilhe arrisca-se a ser o ponto de viragem da campanha eleitoral. O economista, que tem uma interessante maneira de colocar a voz, cheia de sábias tonalidades paternalistas, acha que a solução para todos os problemas do país está no saneamento da administração pública. Parece pouco para uma personalidade tão próxima do divino, como é o dr. Cadilhe. Desenganem-se os descrentes. O omnisciente Cadilhe faz o diagnóstico e declara o rumo! Só não diz a solução porque cabe a nós, os simples mortais, o exercício da liberdade de a descobrir. O dr. Lopes, e os seus poucos amigos, querem ser o povo eleito do dr. Cadilhe. O povo a quem Ele há-de confiar as tábuas das contas públicas. O dr. Lopes, e os seus transitórios amigos, acusam outros de evocar o Santo Nome de Cadilhe em vão. O dr. Lopes tem fé! Mesmo quando Cadilhe não diz nada que outros não digam. Mesmo quando não acrescente uma vírgula às centenas de análises macro-económicas que pululam por aí. É que o dr. Cadilhe tem aquele ar circunspecto, aquela certeza demiúrgica e racional, que tanta falta faz ao actual PSD. Há pois que orar a Cadilhe, para que Cadilhe vele por nós! Ou antes, por eles - pelo dr. Lopes e pelos seus provisórios companheiros.
Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005
Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005
instruções para a construção de vietnamita
A presente edição trazao grande público um opúsculo caté à data foi apenas conhecido ao nível dos padrões. Os padrões dominãtes evitaram durante cerca de cinquentanos cuhomem comum tomasse conhecimento dele. Porquê? É possível questa renitência derivasse das circunstâncias de vida do seu primeiro trãscritor. Com efeito, Daniel Tércio pertencera, duranta juventude, ao Movimento Reorganizativo da Comunicação (MRC), um movimento radical que pugnava pela intensificação exponencial do ruído. O objectivo desse pequeno grupo não era bem de natureza terrorista, embora alguns estudiosos mais ciosos darrumações académicas incluam o Movimento nas organizações anarco-terroristas anti-eco-lógicas. Esta confusão - e imprecisão - deriva do facto do tal grupo pugnar pelo ressurgimento dos media de comunicação, como ascrita sobre derivados vegetais. Porém, o consumo irracional de fibras vegetais não era deliberado, mas, por assim dizer, efeito secundário do projecto em questava envolvido. O combate, para utilizar aspressão adoptada pelo MRC, prosseguia em duas frentes: um, sobregarregar a rede, dois, reinventar os meios de comunicação artesanal. Na primeira frente, o MRC patrocinou os chamados hackers de Câncer, quem vez de dinamitarem a net, promoveram o seu crescimento desmesurado. Na segunda frente, o MRC alcançou resultados insólitos no plano editorial. Alguns destes, como o "Manual para a realização de sinais de fumo", parecem exercícios de retorironia. Outros, como "Instruções para a construção de vietnamita", cagora se publica, ou "As mais belas cartas damor", constituem instrumentos preciosos para quem quiser comunicar pelo exterior da net. Tudisto seria irrelevãte se não se desso caso das Intruções terem sido assinadas por Daniel Tércio, com a chancela do MRC, num período em que o Movimento estava já em acentuado declínio. Da primeira edição das Instruções desconhece-se o número dexemplares efectivamente publicados, mas seguramente não foi além dos 50. A edição foi realizada infolio vegetal, por meio duma vetnamita rudimentar. Usou-se tinta negra de secagem lenta, de que resultou umimensa quantidade de ruído sobre as folhas impressas. Sabe-se hoje, graças às revelações do famoso XTPO, o padrão renegado, que, pela mesma época, As Instruções foram introduzidas na net, no endereço http://www.mrc.com/^dter/luar.pt para logo serem enclausuradas num nicho prisão pelos padrões dominãtes. Assim, as Instruções foram mãtida no limbo, o quequivaleu a serem ignoradas pelo grãde público. As cópias sobre suporte vegetal foram desaparecendo com o correr do tempo, tãto por causa das contigências dos materiais artesanais, como por causa da ignorância dos manuseãtes, que eram, provavelmente, na generalidade dos casos, tremendos analfabetos. As duas cópias hoje catalogadas pertencem, ambas, a um ilustre coleccionador de literatura de FC, que dá pelo nome de de Barreiros. Esta pessoa conservou as duas cópias do manuscrito (na verdade, pode considerar-se "manuscrito", já ca impressão artesanal era realmente manual) durante o período em cos padrões ordenaram a destruição de todas informações sobre suporte vegetal. Escusado é dizer coje, ultrapassado que está esse período negro, a ordem dos padrões continua a ser misteriosa. A tese comumente aceite pressupõe quessa ordem fazia parte da respectiva estratégia autocrática. Na lógica délite dentão, o poder era proporcional ao domínio dos fluxos de informação. Logo, rasg-rasg-rasg, crshtp. Espero fazer-mentender. Por outro lado, um dos aspectos mais interessantes das Instruções está em quelas podem sugerir uma resposta alternativa a esta tese. Imagine-sum livro contaminado por umentidade virulenta (designemo-la assim, à falta de melhor), virtualmente letal prà espécie humana. A ordem lógica é: destrua-so livro. Imagine-se que não se conhece exactamente qual é o livro. Ordem seguinte: destruam-se todos os livros, de moda conservar apenas a informação limpa na net. A título de curiosidade, foi por razão semelhante, co rei Herodes mandou degolar todos os meninos de colo de Belém. Há ainda uma hipótese perversa, híbrida das duas anteriores. Imagine-se que o livro é virulento porque dá aquela espécie de conhecimento de cos padrões têm uxclusivo. Ordem lógica: destrua-se este livro. etc., bzz-bzz.
Será cas Instruções são este livro?
Na verdade, comu leitor confirmará, as Instruções criam a possibilidade de produzir comunicação independente. E mais não será preciso dizer.
Na presente edição, consideraram-se as duas cópias do manuscrito conservado por de Barreiros, de modobter um resultado mais fiel. Para tãto, foram digitalizadas ambas as cópias, em sistema fechado, sem endereço na rede. Obviamente, não foi desta que se tevacesso ao nicho das x-files onde estão fechadas as Instruções. Como se sabe, a quarentena permanece, apesar dos padrões terem sido neutralizados. Continuamos certamenta sofrer as consequências desse período de domínio, e não é de todo absurdo cas acções de retirada dos padrões tenham contaminado a comunicação vulgar exterior à rede, nomeadamente gerando novas perturbações na descontinuidade semântica dos discursos.
O acesso ao nicho prisão da net nos próximos trintanos, pode vir a ser muitútil parencontrar a versão completa das Instruções. Com efeito, julga-se que o opúsculo impresso está incompleto. Provavelmente, porque algo correu mal com a cópia em vietnamita e a matriz artesanal se deteriorou irremediavelmente. Uma das cópias disponíveis apresenta duas folhas com abundantes sujidades de tinta no fim da página 2 , o qué indício quase certo derro do proto-sistema.
Por outro lado, também neste ponto não há certezas. Daniel Tércio, até à data considerado o transcritor das Instruções, pode ter sido o seu artesão. Isto é: um editor, no sentido primitivo da palavra! Até que ponto foi possível, nesses tempos de domínio dos padrões, a actividade subversiva dedição, só deus sabe. Que o dito pertenceu ao RMC não restam dúvidas. Há quem diga, que foi ele quintroduziu na net o proverbial juízo: OS PADRÕES SÃO UNS CABRÕES! É claro questa utilização do calão não abona a seu favor. Por outro lado, há quem diga hoje ca recusa do calão é um preconceito instalado nas consolas cerebrais pelos desaparecidos padrões. Não sei, não sei. Só sei càs vezes, mapetece pipitposnhrohncx.x. Pois. A etno-psiquiatra Medeiros, posta perante os dados biográficos de Daniel Tércio, pronunciou-se nos seguintes termos: no caso de Daniel Tércio ser o autor das Instruções, neste caso, disse ela, o opúsculo é uma parcela de obra mais vasta que ele não teve alento para concluir. Na mesma linha, mas mais radical, o neo-psicanalista Philip Saliv considera: o cabrão era um calão (Philip Saliv é dos que acreditam na naturalidade de praguejar).
Umoutra hipótese tem sido considerada por estudiosos como de Macedo. Partilhando a tese de incompletude das Instruções, de Macedo encara a possibilidade destas serem umespécie de fixação livre dantigos textos exotéricos. O argumento de de Macedo baseia-se nas pesquisas dhistória hermética que assinalam que todo o conhecimento tem uma parcela silenciosa e invisível.
Há finalmente quencarar a hipótese de Daniel Tércio ser a encarnação dum padrão deleitando-se nos jogos labirínticos das personalidades fragmentadas. Porque não o próprio XTPO, o padrão renegado?
Será cas Instruções são este livro?
Na verdade, comu leitor confirmará, as Instruções criam a possibilidade de produzir comunicação independente. E mais não será preciso dizer.
Na presente edição, consideraram-se as duas cópias do manuscrito conservado por de Barreiros, de modobter um resultado mais fiel. Para tãto, foram digitalizadas ambas as cópias, em sistema fechado, sem endereço na rede. Obviamente, não foi desta que se tevacesso ao nicho das x-files onde estão fechadas as Instruções. Como se sabe, a quarentena permanece, apesar dos padrões terem sido neutralizados. Continuamos certamenta sofrer as consequências desse período de domínio, e não é de todo absurdo cas acções de retirada dos padrões tenham contaminado a comunicação vulgar exterior à rede, nomeadamente gerando novas perturbações na descontinuidade semântica dos discursos.
O acesso ao nicho prisão da net nos próximos trintanos, pode vir a ser muitútil parencontrar a versão completa das Instruções. Com efeito, julga-se que o opúsculo impresso está incompleto. Provavelmente, porque algo correu mal com a cópia em vietnamita e a matriz artesanal se deteriorou irremediavelmente. Uma das cópias disponíveis apresenta duas folhas com abundantes sujidades de tinta no fim da página 2 , o qué indício quase certo derro do proto-sistema.
Por outro lado, também neste ponto não há certezas. Daniel Tércio, até à data considerado o transcritor das Instruções, pode ter sido o seu artesão. Isto é: um editor, no sentido primitivo da palavra! Até que ponto foi possível, nesses tempos de domínio dos padrões, a actividade subversiva dedição, só deus sabe. Que o dito pertenceu ao RMC não restam dúvidas. Há quem diga, que foi ele quintroduziu na net o proverbial juízo: OS PADRÕES SÃO UNS CABRÕES! É claro questa utilização do calão não abona a seu favor. Por outro lado, há quem diga hoje ca recusa do calão é um preconceito instalado nas consolas cerebrais pelos desaparecidos padrões. Não sei, não sei. Só sei càs vezes, mapetece pipitposnhrohncx.x. Pois. A etno-psiquiatra Medeiros, posta perante os dados biográficos de Daniel Tércio, pronunciou-se nos seguintes termos: no caso de Daniel Tércio ser o autor das Instruções, neste caso, disse ela, o opúsculo é uma parcela de obra mais vasta que ele não teve alento para concluir. Na mesma linha, mas mais radical, o neo-psicanalista Philip Saliv considera: o cabrão era um calão (Philip Saliv é dos que acreditam na naturalidade de praguejar).
Umoutra hipótese tem sido considerada por estudiosos como de Macedo. Partilhando a tese de incompletude das Instruções, de Macedo encara a possibilidade destas serem umespécie de fixação livre dantigos textos exotéricos. O argumento de de Macedo baseia-se nas pesquisas dhistória hermética que assinalam que todo o conhecimento tem uma parcela silenciosa e invisível.
Há finalmente quencarar a hipótese de Daniel Tércio ser a encarnação dum padrão deleitando-se nos jogos labirínticos das personalidades fragmentadas. Porque não o próprio XTPO, o padrão renegado?
poema
tenho em mim uma noz
de coisa nenhuma
tenho em mim uma hipófise
de ausência
tenho em mim o resto
de não ter
tenho o que não é nem
o que há-de ser
por isso jamais sou
quando julgo ser
de coisa nenhuma
tenho em mim uma hipófise
de ausência
tenho em mim o resto
de não ter
tenho o que não é nem
o que há-de ser
por isso jamais sou
quando julgo ser
Paulo Portas revolucionario
O CDS PP declarou-se o partido revolucionário do século XXI.
O dr. Paulo Portas é o grande líder do CDS PP.
Logo, Paulo Portas é o grande revolucionário português do século XXI.
Virgem Santíssima!!!!
O dr. Paulo Portas é o grande líder do CDS PP.
Logo, Paulo Portas é o grande revolucionário português do século XXI.
Virgem Santíssima!!!!
Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005
monstro blemmyes
os blemmyes pertencem aos povos acéfalos, uma das mais recorrentes e universais fantasias de monstros.
a entropia do dr. Lopes
O dr. Lopes ficará conhecido por ter desenvolvido significativamente os factores entrópicos na governação do país. O próprio dr. Lopes é uma manifestação entrópica significativa. Não por tropeçar frequentemente, gaguejar, ou gerar abundante prole - aspectos que não se lhe aplicam (com excepção do último). O lado entrópico do dr. Lopes é mais do estilo telemóvel e discoteca. Muito telefonema (pelo menos na altura em que formava governo), abundante vida nocturna, brilhantina q.b., opiniões desbaratadas a propósito de tudo e de nada. A propósito, continua sem se saber o que o dr. Lopes pensa do lince da serra da Malcata... Ou seria, do lince ibérico?... Ou seria do futuro do parque Mayer? Cada vez que o dr. Lopes abre a boca saiem de lá pontinhos de interrogação, partículas de coisa nenhuma, que ficam a pairar à volta dele, para seu gáudio pessoal. Então ele pensa: "que inteligente e culto e charmoso que eu sou! Faço perguntas tão espertas!". Por outro lado, considerando o caminho que as coisas estão a tomar, é conveniente que o dr. Lopes comece a duvidar da esperteza das suas perguntinhas. Provavelmente, daqui por umas semanas poucos se lembrarão das perguntinhas do senhor, incluindo ele próprio.
Terça-feira, Fevereiro 08, 2005
cabreira
o registo gráfico do movimento é desde há muito uma das grandes dificuldades em dança. A fluidez dos movimentos dá-se mal com fórmulas fixas e congelamentos de corpos. Uma das primeiras tentativas em português data de meados de setecentos. Foi então que Thomas Cabreira publicou um manual de dançar à francesa baseado no tratado de Pierre Rameau e inspirado no sistema Feuillet de registo de movimentos.
a estrela cubica
Asteroide ∑009-337
O homem-frederico coçou a verruga que tinha no queixo e hesitou. Devia, sim ou não, enviar a mensagem? Um contentor cheia de bruvilos luminosos atravessara o espaço vazio do universo, fora apanhado pelas energias antagónicas dos dois impérios e pairava agora na linha de fronteira. Se usasse o raio tractor, o contentor cairia em cheio em ∑009-337, o que não era nada, mesmo nada, conveniente. O homem-frederico imaginou os bruvillos a impestarem o asteroide com os seus corpinhos de melaço, a estrebucharem como vermes luminosos e a apodrecerem de cancro por todo o lado. A coisa ia feder. Não lhe apetecia nada ter que limpar o asteroide, mas já imaginava o que a sua patroa ia cantar: “BOM, MUITO BOM. SEGURA-OS AÍ QUE JÁ LHES TRATAMOS DA SAÚDE”. Toda a gente sabia como as baleias corcundas apreciavam um bom prato de bruvilos. Os bichinhos, ou será melhor dizer, as plantinhas, além de serem luminosos como poucos, cheiravam a peixe podre e rabiavam freneticamente desde que eclodiam até que secavam. Como eram mais ágeis e escorregadios que enguias e mais resistentes aos ácidos gástricos que a mais empedernida ténia, os bruvilos gritavam de prazer sempre que viam a bocarra de uma grande dama, que por sua vez os acolhia com incomensurável prazer. Parece que as baleias corcundas se deliciavam com a doçura lânguida dos bruvilos, embora o resultado para a saúde não fosse recomendável. Diziam as baleias que os bruvilos lhes amaciavam a voz, mas isso não passava de um pretexto ou de uma desculpa para a sua, delas, gula. O homem-frederico considerou em silêncio que quanto mais sofisticada era uma civilização, maior era a atracção por tanatos. Provavelmente, quando se conhece o Universo como as baleias corcundas conheciam, mais se deseja a morte. O homem-frederico hesitou, hesitou, e o contentor em equilíbrio instável entrou nos campos antagónicos de atracção, começou a desacelerar, até que ficou suspenso por cima do asteróide ∑009-337. Na verdade, não ficou exactamente suspenso, porque ao contrário do que supunha o senhor Ptolomeu, os corpos celestes não estão pregados num sistema de esferas celestes por muito complexo que este se imagine. O homem-frederico, que desconhecia as teorias de Ptolomeu, bem como uma porção de coisas para lá da tecnologia do raio tractor, programou-o no último instante com uma tal mestria e engenho que o contentor a fremir de bruvilos ficou efectivamente a flutuar bem por cima da sua cabeça, acompanhando como um cão fiel o movimento cósmico do pequeno asteróide. Que se fodam as baleias, pensou o homem-frederico, apreciando a luz coada do contentor. Evitara que o asteróide ∑009-337 se tornasse uma pocilga e, mais do que isso, para quem, como ele, das estrelas só conhecia pontinhos tremeluzentes, tinha agora uma estrela ali em cima, uma estrela cúbica, bem luminosa graças ao frenesim dos bruvilos. E, por outro lado, porra, se as grandes damas tinham os seus animais de estimação, porque é que ele também não podia ter uma colónia inteirinha de bicharocos freneticamente escorregadios... De certo modo, este pensamento tranquilizou-o. Para mais, encarar uma estrela cúbica era uma coisa sem preço, um arrebatamento único, que só um homem era capaz de sentir. Benditos bruvilos...
O homem-frederico coçou a verruga que tinha no queixo e hesitou. Devia, sim ou não, enviar a mensagem? Um contentor cheia de bruvilos luminosos atravessara o espaço vazio do universo, fora apanhado pelas energias antagónicas dos dois impérios e pairava agora na linha de fronteira. Se usasse o raio tractor, o contentor cairia em cheio em ∑009-337, o que não era nada, mesmo nada, conveniente. O homem-frederico imaginou os bruvillos a impestarem o asteroide com os seus corpinhos de melaço, a estrebucharem como vermes luminosos e a apodrecerem de cancro por todo o lado. A coisa ia feder. Não lhe apetecia nada ter que limpar o asteroide, mas já imaginava o que a sua patroa ia cantar: “BOM, MUITO BOM. SEGURA-OS AÍ QUE JÁ LHES TRATAMOS DA SAÚDE”. Toda a gente sabia como as baleias corcundas apreciavam um bom prato de bruvilos. Os bichinhos, ou será melhor dizer, as plantinhas, além de serem luminosos como poucos, cheiravam a peixe podre e rabiavam freneticamente desde que eclodiam até que secavam. Como eram mais ágeis e escorregadios que enguias e mais resistentes aos ácidos gástricos que a mais empedernida ténia, os bruvilos gritavam de prazer sempre que viam a bocarra de uma grande dama, que por sua vez os acolhia com incomensurável prazer. Parece que as baleias corcundas se deliciavam com a doçura lânguida dos bruvilos, embora o resultado para a saúde não fosse recomendável. Diziam as baleias que os bruvilos lhes amaciavam a voz, mas isso não passava de um pretexto ou de uma desculpa para a sua, delas, gula. O homem-frederico considerou em silêncio que quanto mais sofisticada era uma civilização, maior era a atracção por tanatos. Provavelmente, quando se conhece o Universo como as baleias corcundas conheciam, mais se deseja a morte. O homem-frederico hesitou, hesitou, e o contentor em equilíbrio instável entrou nos campos antagónicos de atracção, começou a desacelerar, até que ficou suspenso por cima do asteróide ∑009-337. Na verdade, não ficou exactamente suspenso, porque ao contrário do que supunha o senhor Ptolomeu, os corpos celestes não estão pregados num sistema de esferas celestes por muito complexo que este se imagine. O homem-frederico, que desconhecia as teorias de Ptolomeu, bem como uma porção de coisas para lá da tecnologia do raio tractor, programou-o no último instante com uma tal mestria e engenho que o contentor a fremir de bruvilos ficou efectivamente a flutuar bem por cima da sua cabeça, acompanhando como um cão fiel o movimento cósmico do pequeno asteróide. Que se fodam as baleias, pensou o homem-frederico, apreciando a luz coada do contentor. Evitara que o asteróide ∑009-337 se tornasse uma pocilga e, mais do que isso, para quem, como ele, das estrelas só conhecia pontinhos tremeluzentes, tinha agora uma estrela ali em cima, uma estrela cúbica, bem luminosa graças ao frenesim dos bruvilos. E, por outro lado, porra, se as grandes damas tinham os seus animais de estimação, porque é que ele também não podia ter uma colónia inteirinha de bicharocos freneticamente escorregadios... De certo modo, este pensamento tranquilizou-o. Para mais, encarar uma estrela cúbica era uma coisa sem preço, um arrebatamento único, que só um homem era capaz de sentir. Benditos bruvilos...
Segunda-feira, Fevereiro 07, 2005
maquina de rumores
é sabido que em plena campanha eleitoral as máquinas de rumores trabalham freneticamente.
Domingo, Fevereiro 06, 2005
caracter ou carreira?
O dr. Medina Carreira manifestou uma vez mais o seu desprezo por António Guterres. Acusa-o de ter fugido e nega-lhe o direito de regressar à política; aquela acusação, não sendo original, ganha na boca do dr. Carreira um travo odioso. Imagine-se que o engenheiro Guterres não tinha deixado a governação nos idos de 2001. Provavelmente, a esta hora, o dr. Carreira e seu amigos estariam a acusá-lo de não ter saído a tempo. É que ele há ódios que pouco têm a ver com a saída supostamente prematura deste ou daquele actor político. Já agora, que nome dar à saída do dr. Durão Barroso? Uma certa opinião pública e uma boa parte da comunicação social estabeleceu que existe o "fujão" e o "da missão". Na verdade, poder-se-ia ver o caso por outro ângulo: existe o que actua de acordo com a sua consciência moral e aquele que actua de acordo com a sua ambição política. Para o primeiro, o carácter tem a primazia, para o segundo é a carreira que manda. Pessoalmente, prefiro o primeiro ao segundo.
Esopo de Velasquez
Acaba este fim de semana uma das mais notáveis exposições dos últimos tempos - o retrato espanhol, del Greco a Picasso - no Museu do Prado. Esopo de Velasquez é uma das telas expostas. Considerando a personalidade do fabulista, a obra é indubitavelmente adequada aos tempos que correm.











