Dos livros que li na adolescência, um dos que melhor conservei na memória tinha por título “Cidades Mortas”. Assinava-o o escritor americano Clifford D. Simack, um peso-pesado da literatura de ficção científica anglo-saxónica. O tema era o futuro da humanidade e o que estaria para além do futuro dos homens. O leitor, dirigido pela imaginação de Clifford D. Simack, galgava milénios em poucas páginas e alcançava um futuro especulativo onde os animais (naquele caso, os cães) aprendiam a falar e assistiam ao advento de uma nova espécie triunfante: a das formigas. Contada assim, a história parece pueril; não deixava porém de ser engendrada de forma interessante e, de certa maneira, verosímil. Na verdade, a narrativa começava nos nossos dias, com uma antevisão da forma como as sociedades dos homens se organizariam a curto prazo.
Clifford Simack anunciava então o fim das cidades. O argumento era simples: sendo as cidades exclusivamente ocupadas pelo sector terciário, isto é, pelos serviços, elas tenderiam a esvaziar-se das pessoas na proporção em que os meios físicos e virtuais de comunicação se desenvolvessem. Ou seja, Simack previa que as pessoas voltariam a viver no campo, usufruindo as delícias bucólicas dos prados, dos bosques e dos ribeiros, entregando-se a uma espécie de ócio natural; as deslocações às cidades tenderiam a ser feitas por meios aéreos, apenas quando estritamente necessário. É claro que, em “obediência” às convenções da ficção científica, o autor imaginava o trabalho braçal e fabril a ser executado por robôs, criaturinhas electrónicas e obedientes que livrariam os homens e as mulheres tanto dos trabalhos pesados quanto das tarefas de grande perícia.
Por um lado, Simack acertou: o sector terciário cresceu nas cidades, os meios de comunicação desenvolveram-se exponencialmente e os robôs estão hoje mais ou menos por todo o lado, na condição de os concebermos não como homenzinhos mecânicos, mas sim como mecanismos que executam muitas das tarefas que antigamente eram realizadas pelos homens; assim é com as máquinas de lavar, com as escavadoras mecânicas, ou com as caloríferos, para dar apenas três exemplares dos mais vulgares.
Mas, por outro lado, Simack enganou-se redondamente. As cidades não se esvaziaram nem se deu nenhum êxodo para o campo. Além disto, nada indica no horizonte que tal possa acontecer. A desertificação dos interiores rurais tem conduzido em grande medida ao crescimento das cidades, sobretudo daquelas que já eram de grande dimensão, levando-as a um ponto próximo da rotura.
O problema, extremamente complexo, não é ignorado por sociólogos, geógrafos, economistas e outros estudiosos, e deveria tirar o sono a políticos e a gestores de recursos.
Na verdade, há pelo menos um aspecto em que Simack falhou - e que frequentemente os políticos ignoram – que tem a ver com a diferença entre o modo de vida urbano e o modo de vida rural. O problema hoje não se resume apenas ao crescimento das grandes cidades e à desertificação dos interiores rurais, mas também, em Portugal, à confusão entre estes dois tipos de territórios, que gera a expansão do modo de vida urbano sobre o modo de vida rural. Ou seja, as vivências típicas do mundo rural – a consciência dos ciclos da terra, baseados nos trabalhos sazonais, as formas de convívio familiar, as festividades – cedem lugar às vivências urbanas, aos relógios-de-ponta e às horas de ponta, aos bares e às discotecas.
Vem-me à memória uma outra história lida nos bancos da escola primária: a história do rato do campo e do rato da cidade. Na história original, acabava por ser o rato do campo o mais forte e o mais sábio dos dois.
Resta saber, hoje, quem acredita ainda nesta história…