Quinta-feira, Março 17, 2005

O velho do restelo

Baco encostou o corpo ao aerário salgado, desenrolou quatro pedúnculos sensitivos protegidos por campos de força e fê-los passear pelo meio dos biocibs. Naquela espécie de tanque, que antes tinha regurgitado de criaturas artificiais, só três restavam. A primeira era uma longa e exótica serpente de olhos salientes e faiscantes que emergia intranquilamente da água venenosa. A segunda era um mostrengo hirsuto de carne mineral, empoleirado sobre um rochedo que o raio tractor importara directamente do planeta. Ondas bravias fustigavam ambos e uma espuma branca, linfática, salpicava as paredes do aerário. Com os seus próprios pedúnculos, Baco rodeou os hálitos furiosos das duas criaturas em bolhas de ternura dionisíaca. Os monstros rugiram, ferozes, e das bocarras chisparam ameaçadores raios de fogo. A terceira criatura, uma mísera forma articulada que se escondia num nicho do aerário, estremeceu. Baco aproximou-se mansamente, e esticou um filamento afiado que enfiou pelo ânus do biocib, enquanto lhe rodeava os ombros com o pedúnculo livre. A criatura fora modelada com o material genético dos terrestres. O filamento viajou nos intestinos do biocib, progrediu no corpo dele como uma árvore genealógica, verificando uma última vez o mapa genético. Todo o cuidado era pouco. Ali, naquelas formas helicoidais, nas interacções secretas entre os pares de base, estava verdadeiramente a ameaça. Baco confirmou a neutralização. E abençoou-o de sarcasmo. E bafejou nele o esquecimento. Os três biocibs seriam rápida e discretamente enviados para o planeta. Era preciso ir depressa, mais depressa do que Baco gostaria. Havia que completar a missão, a sua missão, antes do Concílio se reunir. O Tronante estava a chegar a qualquer altura e, com o Tronante, nunca se sabe.

O velho desceu as mãos ao longo do corpo e sentiu a lama fria de merda e de sangue colada nas nádegas. A palha do colchão fedia. Mas isso era o menos. A palha mudava-se, a roupa de dentro vestia-se branca, mas mais água, não. Isto pensou o velho, soerguendo-se da enxerga. O rosto enrugado, de longas barbas, parecia mais pálido que de costume. Há duas semanas que passava mal. Nada de vinho, dissera-lhe o físico, recomendando que bebesse muita água.
- Água, meta-a vossa mercê pelo cu acima!
Fosse por motivos científicos, ou para lhe retribuir a tirada ordinária, o físico, mal o apanhou desfalecido, aplicou-lhe um valente clister, que repetiu nos dias seguintes.
- Grande filho de uma égua - rosnou o velho, massajando as pregas da barriga. - Não lhe bastava roubar-me o ouro, tinha ainda que me banhar as tripas.
Furioso, mas ainda trôpego, levantou-se, procurou a garrafa de aguardente e levou-a aos lábios trémulos. O fogo queimou-lhe o jejum e obrigou-o a um arroto azedo. Água, nunca mais! Tinha passado os dias a sonhar com um mar sem fim, que se alongava para sul, em calores insuportáveis, habitado por monstros satânicos que rabiavam como lombrigas imensas nos lugares onde a água fervia. Estranhas visões, estas, as dos sonhos.
Iria perorar contra os navegantes, lá para os lados da ribeira. Para afugentar os monstros que lhe invadiam os sonhos.

FIGURAS DE DANÇA NO CINEMA

No próximo dia 1 de Abril, principia na CULTURGEST o ciclo FIGURAS DE DANÇA NO CINEMA
O programa do ciclo isola em quatro momentos o que pode ser um cruzamento do movimento da película com o movimento do corpo, recordando ou apresentando autores que tomaram a dança, a coreografia e o gesto como estímulos criativos de constituição metafórica de um mundo em movimento.
O programa abre de forma simbólica com uma homenagem a Loïe Fuller (1862–1928), bailarina, coreógrafa e realizadora, cuja aproximação à dança é ainda hoje um dos exemplos mais relevantes do cruzamento entre disciplinas, entre a arte e a ciência, e um exemplo da convivência entre as formas obsoletas do entretenimento popular (fantasmagorias, vaudeville) e a emergência da modernidade e do desenvolvimento tecnológico (e com o fascínio e o desejo de renovação estética que se lhes associam). As Danças Serpentinas, nome pelo qual ficaram conhecidas as criações mais representativas de Fuller, recuperação de um motivo clássico da representação do movimento, eram coreografias simples, assentes em estruturas técnicas por vezes complexas. A bailarina em palco manipulava com a ajuda de grandes varas o corpo de um imenso vestido feito de tecido reflector e brilhante sobre o qual eram projectadas manchas de cor com o recurso a focos de luz, espelhos e diversos truques de palco. A influência de Fuller foi imensa e a forma como interagiu de modo decisivo com as primeiras vanguardas cinematográficas, de resto fascinadas com a representação do movimento, é ainda uma história em aberto, sobretudo se pensarmos na história do cinema abstracto na obra de Oskar Fischinger, Viking Eggeling, entre muitos outros. A leitura dos textos de Germaine Dulac é um exemplo elucidativo do modo como Fuller se aproximava do modelo do que poderia ser o cinema integral – a sua dança tanto era energia, como teatro, fantasmagoria, escrita do movimento com luz, logo cinegrafia, cinema puro (e tal como o cinema segundo Dulac, próximo da música ou da dança). [citado a partir do programa do ciclo]

Quarta-feira, Março 16, 2005

marilyn


marilyn
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Há exactamente 50 anos, Marilyn reaparecia no filme de Billy Wilder "O Pecado mora ao lado".

4tercios exposição pintura

Terça-feira, Março 15, 2005

da velha e da nova politica

Sebastiam Pacheco Varella, cavaleiro da Ordem de Cristo da Vila de Aveiro, é autor da obra impressa "Numero Vocal, Exemplar, Catholico, E Político (...)", publicada sensivelmente cinco anos depois do Príncipe D. João ter sido jurado herdeiro do trono (1697) e quatro anos antes da solene entronização (1707). A obra foi patrocinada por D. Francisco Xavier de Menezes, quarto Conde de Ericeira, um dos espíritos mais cultos do seu tempo, herdeiro e continuador de uma brilhante linhagem de intelectuais e ele próprio profundamente envolvido no movimento das Academias.
O texto apresenta uma curiosa actualidade na descrição dos ambientes da governação. Sebastiam Pacheco Varella previne por exemplo o futuro rei contra as criaturas que infestam o “ecossistema” palaciano: “osgas de palácio” (“que tendo boa estrella na apparencia, até empregar o veneno, que dissimulão, entrão por meyo de obsequios humildes; e logrão habitação permanente”), “aranhas” (“que tecendo sempre enredos em danno dos companheyros incautos, permanecem nos lugares supremos: segurando sua conservação no descuydo”), “Monas”, “papagaios”, “libreos”, “ratos”, “rãs”, “corvos”, “abelhas”, “andorinhas”... A zoo-alegoria alcança mesmo as fronteiras das espécies naturais: “e se no paço se vêem também monstros & feras presas; taes são estes artífices da lisonja, & mais perniciosos, porque andão em liberdade. Sereas, que encantão para destruir. Harpias que contaminão, para roubar; lobos, que enganando devorão; leopardos, que attrahindo matão; finalmente faiscas do inferno, que se pegão nos Principes, abrasão o Mundo: já cegando-os por louvor com o fumo da soberba; já inflammando-os por accusação com os incendios da ira.”
Eloquente, sem dúvida.

Segunda-feira, Março 14, 2005

Financiamento europeu

Desde o ano 2000 até 2004, Portugal esteve longe de utilizar na totalidade o volume de financiamento posto à nossa disposição pela União Europeia. Quer isto dizer que, podendo beneficiar de um certo montante, o não fizémos, nem bem, nem mal. Ou seja, devolvemos alguns milhões de euros ao banco central europeu, enquanto nos dedicávamos, com o governo de Durão Barroso, a vender o património nacional para ficar nos limites do pacto de estabilidade. A irracionalidade é óbvia. Dir-me-ão que os fundos europeus se destinavam a rubricas específicas, que não ao pagamento de dívidas ou ao saneamento de contas de tesouraria. É verdade. Mas fica por explicar a razão para ter prescindido desses milhões europeus. Uma grande parte do dinheiro que não usámos destinava-se à formação de recursos humanos. Porque é que não investimos na formação? Por inexistência de programas? É possível que sim. Mas também é possível que esses programas tenham existido e continuem a existir, mas que não funcionem. Porque é que não funcionam? Um exemplo: o programa FORAL. Destina-se o programa FORAL à formação em exercício de funcionários da administração local. A sua aplicação segue uma lógica regional. Em certas regiões, o programa FORAL funciona e tem os seus resultados. Noutros lados - como a região de Lisboa e Vale do Tejo - é mentira. O gabinete da RLVT está ocupado por quem odeia profundamente toda e qualquer iniciativa que escape ao seu controlo. Escudada por uma legislação complexa, o gabinete cava um fosso entre a sua missão e o público, adiando decisões, enredando os possíveis parceiros em tristes novelas burocráticas. É um pequeno e porventura insignificante exemplo - mas, multiplicado por dezenas, explica a razão que nos tem levado a devolver os subsídios a Bruxelas. Tudo isto com o sorriso do dever cumprido dos pequenos funcionários da burocracia... De como criaturas insignificantes conseguem finalmente realizar-se a fazer mal...

figurino grotesco


figurino grotesco
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Em alguns ballets de corte do século XVII existia um forte elemento grotesco, que se revelava especialmente nos figurinos...

Domingo, Março 13, 2005

Cidades Mortas

Dos livros que li na adolescência, um dos que melhor conservei na memória tinha por título “Cidades Mortas”. Assinava-o o escritor americano Clifford D. Simack, um peso-pesado da literatura de ficção científica anglo-saxónica. O tema era o futuro da humanidade e o que estaria para além do futuro dos homens. O leitor, dirigido pela imaginação de Clifford D. Simack, galgava milénios em poucas páginas e alcançava um futuro especulativo onde os animais (naquele caso, os cães) aprendiam a falar e assistiam ao advento de uma nova espécie triunfante: a das formigas. Contada assim, a história parece pueril; não deixava porém de ser engendrada de forma interessante e, de certa maneira, verosímil. Na verdade, a narrativa começava nos nossos dias, com uma antevisão da forma como as sociedades dos homens se organizariam a curto prazo.
Clifford Simack anunciava então o fim das cidades. O argumento era simples: sendo as cidades exclusivamente ocupadas pelo sector terciário, isto é, pelos serviços, elas tenderiam a esvaziar-se das pessoas na proporção em que os meios físicos e virtuais de comunicação se desenvolvessem. Ou seja, Simack previa que as pessoas voltariam a viver no campo, usufruindo as delícias bucólicas dos prados, dos bosques e dos ribeiros, entregando-se a uma espécie de ócio natural; as deslocações às cidades tenderiam a ser feitas por meios aéreos, apenas quando estritamente necessário. É claro que, em “obediência” às convenções da ficção científica, o autor imaginava o trabalho braçal e fabril a ser executado por robôs, criaturinhas electrónicas e obedientes que livrariam os homens e as mulheres tanto dos trabalhos pesados quanto das tarefas de grande perícia.
Por um lado, Simack acertou: o sector terciário cresceu nas cidades, os meios de comunicação desenvolveram-se exponencialmente e os robôs estão hoje mais ou menos por todo o lado, na condição de os concebermos não como homenzinhos mecânicos, mas sim como mecanismos que executam muitas das tarefas que antigamente eram realizadas pelos homens; assim é com as máquinas de lavar, com as escavadoras mecânicas, ou com as caloríferos, para dar apenas três exemplares dos mais vulgares.
Mas, por outro lado, Simack enganou-se redondamente. As cidades não se esvaziaram nem se deu nenhum êxodo para o campo. Além disto, nada indica no horizonte que tal possa acontecer. A desertificação dos interiores rurais tem conduzido em grande medida ao crescimento das cidades, sobretudo daquelas que já eram de grande dimensão, levando-as a um ponto próximo da rotura.
O problema, extremamente complexo, não é ignorado por sociólogos, geógrafos, economistas e outros estudiosos, e deveria tirar o sono a políticos e a gestores de recursos.
Na verdade, há pelo menos um aspecto em que Simack falhou - e que frequentemente os políticos ignoram – que tem a ver com a diferença entre o modo de vida urbano e o modo de vida rural. O problema hoje não se resume apenas ao crescimento das grandes cidades e à desertificação dos interiores rurais, mas também, em Portugal, à confusão entre estes dois tipos de territórios, que gera a expansão do modo de vida urbano sobre o modo de vida rural. Ou seja, as vivências típicas do mundo rural – a consciência dos ciclos da terra, baseados nos trabalhos sazonais, as formas de convívio familiar, as festividades – cedem lugar às vivências urbanas, aos relógios-de-ponta e às horas de ponta, aos bares e às discotecas.
Vem-me à memória uma outra história lida nos bancos da escola primária: a história do rato do campo e do rato da cidade. Na história original, acabava por ser o rato do campo o mais forte e o mais sábio dos dois.
Resta saber, hoje, quem acredita ainda nesta história…

Mascara


máscara
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máscara de iniciação.
Matapa, Lunda, Angola