40 “degraus” para a sombra
Aos românticos que, normalmente, não resistem a pensar: “masquebomtantocalorzinhoquegiroestudarasdançasdosafricanos”, lamento informar que o ar anda refrescado pelas chuvas e que o “exótico” afinal sou eu própria.
Pois é... De bloco de apontamentos no cérebro (e nunca à cabeça), ando a tentar perceber, através de inquéritos interiores, como consigo viver aqui, quanto tempo resistirei a esta capital preparada para 600 mil e agora com cerca de 5 milhões de habitantes, porque será que não me sinto bem a andar a pé, que causas me levam a irritar quando vejo passar os mwatas ou as suas proles em carrões topo de gama, como habituar-me ao facto de demorar mas de 50 minutos de casa à praia em vez dos antigos 10 minutos, como conviver com a incompetência e com a tal ignorância atrevida... quando perceberei que o “normal” há muito se vem desviando dos meus padrões; como impor-me enquanto híbrido cultural assumido...
Enfim, tenho andado a deduzir que “a outra” só posso ser eu, uma amostra da minoria esmagadora em vias de extinção que afinal ainda “havia” por cá; A cada hora que passa, descubro-me objecto de estudo com declarado interesse etnológico, já semi circunscrito, sobre o qual urge dissertar.
Todavia, hoje detenho-me aqui, por me sentir descendo ao patamar do considerado “reaccionário” de direita (redundância?), mal visto pelos que acham que Angola é o tal país rico e em vias de desenvolvimento (ambígua esta designação, não?).
Mas é isso... mesmo sem paludismo, vou confirmando que estou sempre à temperatura de 40 (de)graus à sombra... de uma identidade. Estou doente. Diagnóstico: uma combinação de masoquismo com o agora démodé espírito revolucionário (?)
(Ou, talvez mais certo, uma quase indecifrável, mas fiel, cumplicidade cultural.)




