Sexta-feira, Março 25, 2005

40 “degraus” para a sombra

Desci, como habitualmente, ao meu país. Para além de vir respirar a minha família para continuar a manter-me viva na “civilizada” Europa, preciso de efectuar algum trabalho de campo para a minha tese.
Aos românticos que, normalmente, não resistem a pensar: “masquebomtantocalorzinhoquegiroestudarasdançasdosafricanos”, lamento informar que o ar anda refrescado pelas chuvas e que o “exótico” afinal sou eu própria.
Pois é... De bloco de apontamentos no cérebro (e nunca à cabeça), ando a tentar perceber, através de inquéritos interiores, como consigo viver aqui, quanto tempo resistirei a esta capital preparada para 600 mil e agora com cerca de 5 milhões de habitantes, porque será que não me sinto bem a andar a pé, que causas me levam a irritar quando vejo passar os mwatas ou as suas proles em carrões topo de gama, como habituar-me ao facto de demorar mas de 50 minutos de casa à praia em vez dos antigos 10 minutos, como conviver com a incompetência e com a tal ignorância atrevida... quando perceberei que o “normal” há muito se vem desviando dos meus padrões; como impor-me enquanto híbrido cultural assumido...
Enfim, tenho andado a deduzir que “a outra” só posso ser eu, uma amostra da minoria esmagadora em vias de extinção que afinal ainda “havia” por cá; A cada hora que passa, descubro-me objecto de estudo com declarado interesse etnológico, já semi circunscrito, sobre o qual urge dissertar.
Todavia, hoje detenho-me aqui, por me sentir descendo ao patamar do considerado “reaccionário” de direita (redundância?), mal visto pelos que acham que Angola é o tal país rico e em vias de desenvolvimento (ambígua esta designação, não?).
Mas é isso... mesmo sem paludismo, vou confirmando que estou sempre à temperatura de 40 (de)graus à sombra... de uma identidade. Estou doente. Diagnóstico: uma combinação de masoquismo com o agora démodé espírito revolucionário (?)
(Ou, talvez mais certo, uma quase indecifrável, mas fiel, cumplicidade cultural.)

uma mulher

Eu acompanharei esta dança com uma canção, com um cântico que zombe do espírito da Gravidade, meu muito alto e muito poderoso diabo, do qual dizem os homens ser o “senhor do Mundo”.
Era uma vez uma mulher que fez um pacto com o “senhor do mundo”. Dar-te-ei a minha alma, se tu me concederes o amor. O “senhor do mundo” aceitou o negócio. Concedeu-lhe o amor, conforme ela queria. A mulher sentiu então as dolorosas delícias da paixão, sentiu-se arrebatada pela força dos amantes e comovida com a ternura e os jogos do desejo. Passado um tempo conveniente, o “senhor do mundo” veio reclamar a alma da mulher. Dá-me mais um tempo, pediu a mulher. Pois sim, disse o diabo. A mulher sentiu então as dores da rejeição, o ciúme alarmante, o desejo traído. É então isto o amor?, interrogou-se, chorando. Quando o “senhor do mundo” tornou a reclamar-lhe a alma, a mulher encheu um frasco com as suas próprias lágrimas, descalçou-se e entregou os sapatos e o frasco de lágrimas ao diabo. Toma, disse, é esta a minha alma. E continuou a dançar sobre a linha vermelha da vida.

Quinta-feira, Março 24, 2005

a campanha em numeros

O BORREGO está entre as diversas publicações em papel que recebo. Trata-se este de uma prometedora "folha oposicionista", dirigida por J. J. Andaluz Gouveia. Na impossibilildade de transcrever a dita folha na íntegra, vai a seguir a CAMPANHA EM NÚMEROS. É certo que a campanha já lá vai, mas as estatísticas estão aí para ficar. De modo que... ...

A campanha em números
75 - número de rebuçados do dr. Bayard que o "staff" conseguiu meter na boca de Jerónimo de Sousa, nna ennttrevista da RTP para que o líder pudesse voltar ao debate.
20 - número de minutos durante os quais Jerónimo de Sousa se esteve a babar, no estúdio da RTP onde decorria a entrevista aos cinco chefes de partido, com a boca cheia de rebuçados do dr. Bayard.
8 - número de cartazes afixados pelo PCTP-MRPP.
650 - número de provas fotográficas realizadas até que a fotografia de Paulo Portas para os cartazes fosse aprovada.
1270 - número de vezes que o retrato de Freitas do Amaral foi pontapeado na sede do CDS/PP.
350 - número de vezes que Santana Lopes foi chamado à atenção, durante o debate na RTP, por atingir os outros líderes de partido e os apresentadores com "gafanhotos" de saliva.
25 - número de cassetes recicladas que o Partido Humanista gastou na campanha eleitoral.
1006 - Número de vezes que Santana Lopes proferiu, em comícios e na televisão a palavra "incubadora".
6.876.500 - Número de vezes, no dia das eleições, entre as 20 e as 23h, que Alberto João Jardim pronunciou a palavra "cubanos" referindo-se aos continentais.
10.654.897 - número de vezes, no dia das eleições, entre as 20 e as 23h, que Alberto João Jardim pronunciou a palavra "vermelhos" referindo-se aos continentais.
25 - número, em euros, do custo da campanha do POUS liderado pela camarada Carmelinda Pereira.

figurino


figurino
Originally uploaded by daniel tércio.
criação de Oskar Schlemmer para o Ballet Triádico

Einstein


einstein
Originally uploaded by daniel tércio.
No ano do centenário da morte de Einstein, uma foto simples.

Quarta-feira, Março 23, 2005

haiku #02

lume nas pupilas
quatro lâminas de pele
o jovem vê-a


explicação (nos próximos haikus não haverá explicações):
trata-se de um reflexo sobre a paixão da juventude. O lume das pupilas revela a frescura enérgica da Primavera. Quatro lâminas marcam quatro pontos do corpo masculino - as duas mãos, a boca e o sexo - simultaneamente tomados de agressividade e vulneráveis como a pele. "O" e "a" tanto pode ser o contacto, neste caso visual, entre duas pessoas de sexo oposto, como a descoberta do corpo, ou da alma. Ver remete para uma dimensão contemplativa, o que significa que se trata de alguém que já saiu da adolescência e é capaz de ver em si próprio a paixão.
Escrevi este haiku inteiramente dentro da cabeça, enquanto conduzia lentamente pela segunda circular. Fixei-o pouco antes de atestar o depósito do meu carro. Escrevi-o pouco depois de chegar a casa.

Terça-feira, Março 22, 2005

dia mundial da água

Quem passou hoje pelo google reparou certamente numa diferença. Por baixo do habitualmente colorido nome do motor de busca estava uma bacia, para onde as letras escorriam um líquido azul. Foi esta a maneira inteligente do google comemorar o DIA MUNDIAL DA ÁGUA.
Clickando na bacia, apareceriam notícias diversas a propósito da água, da sua escassez e da forma ccomo é desbaratada por todo o mundo.
Dessas notícias, transcrevo o seguinte excerto:

The United Nations says more than 1.1 billion people around the world lack safe water and 2.4 billion have no access to sanitation - leading to over 3 million deaths every year. Almost one fifth of all children - lack even the bare minimum of safe water they need to live.

haiku

Haiku é uma forma de poesia tradicional japonesa que surgiu de maneira independente nos finais do século XIX. Um Haiku deve ser constituido por dezassete sílabas divididas em grupos de 5, 7 e 5 sílabas, e destina-se a ser escrito, lido e compreendido como um poema independente, completo em si mesmo. Uma das recomendações para a escrita de um haiku é ele não ter um único centro de interesse e reflectir temas de quotidiano, colocados numa forma refrescante. Muito embora um haiku seja constituído, como se disse, por três grupos silábicos, a forma do poema é composta por duas secções independentes, que se articulam entre si e participam no esclarecimento uma da outra. Uma das recomedações suplementares diz respeito à marcação da estação em que o haiku foi escrito; ou seja, desejavelmente o haiku deve conter uma palavra que assinala a estação (por exemplo, neve para o Inverno). Tanto quanto sei, quando escrito numa língua que não o japonês, são aceitáveis pequenas alterações na contabilidade silábica dos grupos. Com estas regras, escrevi o meu primeiro haiku:

o cardume atrai
uma linha e um anzol
dois pescadores

«Que filme!»

Acabo de receber a mensagem: «Nu quer falar consigo».
Entusiasmada, mas vestida (12 graus em Lisboa), apresso-me a fazer o copy/paste exigido.
A net é implacavelmente antipática. Não dá chance à minha «inabilidade». Corta!
O.K. Chegada a Luanda na noite anterior. Estou sentada ao computador a testar a recém instalada banda larga, ainda demasiado lenta para a minha urgência habitual.
Repete!
... Menos vestida (dado o meu posicionamento geográfico actual), repito meticulosamente a operação que me dará acesso à escada. A chave está na porta. A EDEL corta (!) a energia (estou em Angola, lembram-se?)
... «que cena, meu!» (expressão tuga); «bué malaike!» (expressão mwangolê).
À terceira (cena final) inicio, por fim, a descida (nada triunfal, convenhamos) da escada.
Estou no primeiro degrau. Ou no último? É que olhei para cima e vi. O Professor Daniel. (Oups! Corta!). Desequilíbrio.
Ao som da música «Parte o braço» dos Garimpeiros passa o genérico final.
Vai a negro (isento de sugestões antropológicas).

Segunda-feira, Março 21, 2005

petróleo e energia

Semana a semana o preço do barril de petróleo é revisto em alta. Ultrapassado o valor dos cinquenta dólares por barril, o petróleo entra naquela linha em que a indústria, à escala global, tem que equacionar a substituição dos combustíveis fósseis por outras fontes energéticas. Na verdade, as alternativas desde há muito são conhecidas. Depois dos primeiros ensaios, começam, embora timidamente, a ser comercializadas soluções alternativas. Exemplos: nos transportes, os carros eléctricos, de utilização preferencial nas cidades. No domínio das energias renováveis, a energia solar e a energia eólica, entre outras. Em Portugal, encontram-se alguns desses novos moinhos de vento. Na verdade, não tantos quanto seria desejável. Não tantos quanto acordados com a Europa. É sobretudo triste quando se lêem nos jornais micro-notícias sobre o levantamento da população de uma pequena aldeia portuguesa, reunida para se manifestar contra a construção de moinhos de vento. É ainda mais triste quando se vêem alguns supostos defensores do ambiente a reclamarem contra os moinhos de vento por causa de uma colónia de andorinhas. E é uma completa tristeza verificar o tratamento demagógico que a comunicação social dedica a estes temas e à putativa revolta do povo.

Domingo, Março 20, 2005

exposição em Aveiro

texto alusivo à exposição QUATROTÉRCIOS, patente na galeria Enquadrar, em Aveiro, de 19 de Março a 9 de Abril.

Em As Cidades Mortas, o autor, Cliford D. Simack, imaginou uma família que permanece na Terra enquanto a humanidade emigra para Júpiter. Os Webster - era este o apelido da família - ficariam por cá para ensinar os cães a falar e para pôr os robôs em movimento. Os Webster podiam ser os Silvas se nascessem em Portugal. Mais dificilmente seriam os Tércios. Mais do que um nome – o de Tércio - o que une os quatro criadores que agora expõem é, por exemplo, terem lido As Cidades Mortas de Simack, apreciarem os filmes dos irmãos Cohen e terem herdado sucessivamente os velhos Cavaleiros Andantes do mais velho. Entre os quatro, é possível também que exista de comum uma certa inflexão nas hélices do DNA. É razoável mesmo que essa inflexão se tenha aromatizado nas águas da ria de Aveiro. O resultado está longe de ser homogéneo. Por isto, na verdade, esta exposição é um manifesto contra a clonagem. Se neste a pintura parece batida pelo vento, naquele cristaliza-se em personagens, toma a forma da ilustração, para logo, num terceiro, integrar a abtracção e, num quarto, a figuração narrativa. Decididamente, os tércios de que se fala não estão cá para ensinar os cães a falar nem tão-pouco para pôr os robôs em movimento. Quanto muito, gostariam que as linhas e os planos ganhassem a potência das palavras. Colocar as cores e as formas a dizer o mundo. Os seus mundos. Enfim, dizer a realidade de quatro maneiras diferentes.

homem de vitrúvio


homem de Vitrúvio
Originally uploaded by daniel tércio.
Eis o famoso desenho de Leonardo da Vinci. Antes mesmo de inspirar recentes efabulações (como a de Dan Brown), o "homem de vitrúvio" parece demonstrar que no corpo humano se realiza a quadratura do círculo...