O último trabalho conhecido de Júlio Verne foi “O Adão Eterno”, concluido no ano de 1905, poucas semanas antes da sua morte. Este conto versa um tema caro à ficção científica: o colapso do Mundo e a adaptação da vida sobrevivente às novas condições. Trata-se, como seria de esperar, de uma descrição excelente, não obstante o autor ter a saúde particularmente abalada nessa época – os olhos achavam-se enevoados por cataratas e ensurdecera quase por completo. O conto reflecte também uma certa desilusão que, nos últimos anos de vida, Verne experimentava pela Ciência. “O Adão Eterno” foi incluido em uma colecção de contos em 1910, cinco anos após a sua morte, intitulada “Ontem e Amanhã”. A tradução em inglês, por Willis T. Broadley, figurou pela primeira vez no número de Março de 1967 da revista Saturn. Em português, o conto foi publicado no primeiro volume da colectânea “Obras primas da Ficção Científica”, com tradução de Eduardo Saló, em data posterior a 1966, já que o copyright da edição inglesa é desta data e pertence a Sam Moskowitz. Uma das curiosidades da história está na descrição de um tsunami gigantesco que assola o planeta. O narrador foge vertiginosamente para o cume da montanha, à medida que o mundo é engolido pelos oceanos.
“ - O mar! O mar! – bradava ele a plenos pulmões.
Virei-me para a costa e fiquei petrificado de horror. Embora não abarcasse a catástrofe em toda a sua ominosa extensão, tive a noção de que o aspecto familiar das coisas se alterara. O meu coração contraiu-se, quando compreendi que o mundo que considerava imutável registara uma modificação profunda num minuto.”