Sábado, Abril 16, 2005

Haikai

Longe ainda
As pitangas embrião
Bálsamo em mim

Quarta-feira, Abril 13, 2005

Sincronicidade

“A causalidade enquanto uma verdade meramente estatística não absoluta é uma espécie de hipótese de trabalho sobre como os acontecimentos surjem uns a partir dos outros, enquanto que, para a sincronicidade, a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significa algo mais do que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência de eventos objectivos entre si, assim como dos estados subjectivos (psíquicos) do observador ou obsevadores.”

C. G. Jung, Prefácio ao "I Ching, o Livro das Mutações"

Jogos (de poder)

Rendida ao jogo de letras arquitectadas sob a sedução dos dedos nas teclas, e dançando à toa dentro do círculo de giz de bombó (Henrique Guerra a lembrar Brecht) pergunto, de olhos vendados: quem és tu?
Quero-te; Apanhar. E tu vens para o meu lugar.
Na eternidade do grande círculo e na vertigem do rodopiar todos somos, à vez, a cabra cega.

Agora, a sério: que piada tem assumirmos, orgulhosamente, os olhos cheios de areia?
(Desculpem se estrago a brincadeira, mas o sol deste meu país só pode estar a cozer-me os “miolos”. Dahhh!).

Terça-feira, Abril 12, 2005

haiku #05

com o mar na voz
olho os teus olhos de céu
água e café

Ver a lua no século XIX

Ver a lua no século XIX
Originally uploaded by daniel tércio.
Ilustração de Gerlier.
"Un Mundo desconocido. Dos años en la Luna"
de Pierre de Sélènes.
Trad. do francês de Enrique Leopoldo de Verneuill. 1898

Segunda-feira, Abril 11, 2005

No estômago da Baleia

Termina no próximo fim de semana (dia 17) a exposição de Rebecca Horn, no CCB, em Lisboa.
Trata-se de uma portunidade única para contactar com uma das grandes criadoras contemporâneas.
Imperdível, pois.
Sugestivamente, a expo intitula-se Bodylandscapes, e inclui desenhos, esculturas e instalações, desde os anos 60 até à actualidade. A extensão temporal da obra exposta, por um lado, e por outro lado a natureza pluridisciplinar do trabalho de Rebecca Horn, explicam a conjugação de diferentes linguagens. Materiais diversos, vários suportes, procedimentos eventualmente divergentes não anulam porém a impressão de se entrar num universo de uma singularidade formidável e de uma coerência única.
Entre as diversas instalações, escolheria “Luz capturada no estômago da baleia”, de 2002. Descrição impossível. A ver, apenas. Ou melhor: a habitar, como o Jonas bíblico.

Domingo, Abril 10, 2005

luna


ilustração de Gerlier.
"Un Mundo desconocido.
Dos años en la Luna"
de Pierre de Sélènes.
Trad. do francês de Enrique Leopoldo de Verneuill. 1898
luna
Originally uploaded by daniel tércio

O Adão Eterno, de Verne

O último trabalho conhecido de Júlio Verne foi “O Adão Eterno”, concluido no ano de 1905, poucas semanas antes da sua morte. Este conto versa um tema caro à ficção científica: o colapso do Mundo e a adaptação da vida sobrevivente às novas condições. Trata-se, como seria de esperar, de uma descrição excelente, não obstante o autor ter a saúde particularmente abalada nessa época – os olhos achavam-se enevoados por cataratas e ensurdecera quase por completo. O conto reflecte também uma certa desilusão que, nos últimos anos de vida, Verne experimentava pela Ciência. “O Adão Eterno” foi incluido em uma colecção de contos em 1910, cinco anos após a sua morte, intitulada “Ontem e Amanhã”. A tradução em inglês, por Willis T. Broadley, figurou pela primeira vez no número de Março de 1967 da revista Saturn. Em português, o conto foi publicado no primeiro volume da colectânea “Obras primas da Ficção Científica”, com tradução de Eduardo Saló, em data posterior a 1966, já que o copyright da edição inglesa é desta data e pertence a Sam Moskowitz. Uma das curiosidades da história está na descrição de um tsunami gigantesco que assola o planeta. O narrador foge vertiginosamente para o cume da montanha, à medida que o mundo é engolido pelos oceanos.
“ - O mar! O mar! – bradava ele a plenos pulmões.
Virei-me para a costa e fiquei petrificado de horror. Embora não abarcasse a catástrofe em toda a sua ominosa extensão, tive a noção de que o aspecto familiar das coisas se alterara. O meu coração contraiu-se, quando compreendi que o mundo que considerava imutável registara uma modificação profunda num minuto.”