comer o coração
(texto escrito quase ao correr do teclado)
A peça "Comer o coração", da autoria de Rui Chafes e de Vera Mantero, esteve recentemente exposta no CCB, depois de ter sido apresentada na última bienal de artes plásticas de São Paulo. A peça - uma enorme escultura (de Rui Chafes) habitada por um corpo (de Vera Mantero) - representou Portugal naquele importante evento artístico. Para o efeito, obteve um apoio consistente do Instituto das Artes.
De regresso à "pátria", a peça vinha com o brilho das obras indispensáveis. Digamos que ela marcaria a nossa contemporaneidade, jogando-se esta nos espaços intersticiais das linguagens artísticas. Ou seja, mais do que uma conjugação de linguagens, "Comer o coração" deveria funcionar no território intersticial entre a escultura, a dança e o canto. Neste sentido, a peça funcionaria num lugar de fronteira.
Não sei como é que ela funcionou exactamente em São Paulo, nem tão-pouco se do outro lado do Atlântico foi detectado este posicionamento de fronteira. Julgo, no entanto, que em Lisboa "comer o coração" falhou esse lugar.
S. Langer dizia que cada objecto de arte tem uma "apparition" que lhe concede, aos olhos do espectador, um lugar no quadro genético dos genéros artísticos. Por exemplo, podemos sair de um espectáculo interrogando-nos se "aquilo" era teatro, ou podemos sair de uma exposição na dúvida se aquilo era "pintura", mas, num e noutro caso, existe uma primeira impressão (ou uma aparição) que nos autoriza a identificar a respectiva linguagem artística; ou seja, as dúvidas subsequentes, são... subsequentes; e não se colocam no primeiro instante em que estamos perante o objecto.
Vem isto a propósito do primeiro instante da recepção de "comer o coração". Em Lisboa, os espectadores entram para a sala como se se tratasse da entrada para um espectáculo. Começa aqui um tempo em que os espectadores, parados no mesmo lugar, vêem e escutam a voz de Mantero sentada numa das cadeirinhas metálicas num dos grandes tripodes de Chafes. Não se passa nada. O corpo contorce-se lá no alto, há sons que emite, a escultura mantém-se olimpicamente ali, e o espectador de cabeça levantada, inutilmente. A peça, organizada como se se tratasse de um espectáculo, obriga a um tempo de observação. Ora, é justamente este tempo que está a mais. Porque, na verdade, os objectos plásticos têm um tempo diferente de recepção do tempo que se tem, por exemplo, para ler um livro, ou para assistirr a um espectáculo. Ao propor uma estada com uma certa duração numa sala do CCB, "Comer o coração" retira a liberdade ao espectador. A liberdade de cada um de nós se mover, se distanciar da peça, rodeá-la, manter-se-lhe fiel, ou abandoná-la na sua inutilidade. Enfim a liberdade do olhar. Por estas razões, "comer o coração" (na versão CCB) não funcionou para mim.
A peça "Comer o coração", da autoria de Rui Chafes e de Vera Mantero, esteve recentemente exposta no CCB, depois de ter sido apresentada na última bienal de artes plásticas de São Paulo. A peça - uma enorme escultura (de Rui Chafes) habitada por um corpo (de Vera Mantero) - representou Portugal naquele importante evento artístico. Para o efeito, obteve um apoio consistente do Instituto das Artes.
De regresso à "pátria", a peça vinha com o brilho das obras indispensáveis. Digamos que ela marcaria a nossa contemporaneidade, jogando-se esta nos espaços intersticiais das linguagens artísticas. Ou seja, mais do que uma conjugação de linguagens, "Comer o coração" deveria funcionar no território intersticial entre a escultura, a dança e o canto. Neste sentido, a peça funcionaria num lugar de fronteira.
Não sei como é que ela funcionou exactamente em São Paulo, nem tão-pouco se do outro lado do Atlântico foi detectado este posicionamento de fronteira. Julgo, no entanto, que em Lisboa "comer o coração" falhou esse lugar.
S. Langer dizia que cada objecto de arte tem uma "apparition" que lhe concede, aos olhos do espectador, um lugar no quadro genético dos genéros artísticos. Por exemplo, podemos sair de um espectáculo interrogando-nos se "aquilo" era teatro, ou podemos sair de uma exposição na dúvida se aquilo era "pintura", mas, num e noutro caso, existe uma primeira impressão (ou uma aparição) que nos autoriza a identificar a respectiva linguagem artística; ou seja, as dúvidas subsequentes, são... subsequentes; e não se colocam no primeiro instante em que estamos perante o objecto.
Vem isto a propósito do primeiro instante da recepção de "comer o coração". Em Lisboa, os espectadores entram para a sala como se se tratasse da entrada para um espectáculo. Começa aqui um tempo em que os espectadores, parados no mesmo lugar, vêem e escutam a voz de Mantero sentada numa das cadeirinhas metálicas num dos grandes tripodes de Chafes. Não se passa nada. O corpo contorce-se lá no alto, há sons que emite, a escultura mantém-se olimpicamente ali, e o espectador de cabeça levantada, inutilmente. A peça, organizada como se se tratasse de um espectáculo, obriga a um tempo de observação. Ora, é justamente este tempo que está a mais. Porque, na verdade, os objectos plásticos têm um tempo diferente de recepção do tempo que se tem, por exemplo, para ler um livro, ou para assistirr a um espectáculo. Ao propor uma estada com uma certa duração numa sala do CCB, "Comer o coração" retira a liberdade ao espectador. A liberdade de cada um de nós se mover, se distanciar da peça, rodeá-la, manter-se-lhe fiel, ou abandoná-la na sua inutilidade. Enfim a liberdade do olhar. Por estas razões, "comer o coração" (na versão CCB) não funcionou para mim.




