Sábado, Maio 07, 2005

Agripianos


agripianos
Originally uploaded by daniel tércio.
Um dos mais curiosos povos monstruosos, que se encontram em textos medievais a partir dos séculos VII-VIII. Quanto às características físicas, a imagem fala por si.

Sexta-feira, Maio 06, 2005

As duas jaulas

"No jardim de meu pai há duas jaulas.
Numa está um leão que os escravos de meu pai trouxeram do deserto do Nivanah; na outra há um pardal que não canta.
Todos os dias, ao amanhecer, o pardal diz ao leão. Bom dia, irmão prisioneiro!"
"O Louco" de Khalil Gobran

Arquitectura e Esquecimento

“A primeira causa de se extinguir a Gloria de muitos he o esquecimento dos tempos; por isso os Architectos observando que a terra crescendo pouco a pouco escondia os grandes edificios, inventarão os plinthos, e os Pedestaes para elevar as colunas: assim os historicos acharão os grandes hiperboles, e os fabulozos prodigios, para que quando o tempo diminua, e extingua com o esquecimento parte das glorias ao menos permaneça alguma sobre a fé do encarecimento.”
Jozé Ferreira Castello-Branco, Documentos agradáveis (…), 1751.

Quarta-feira, Maio 04, 2005

Fragilidades (?)

Angola73-Mutilados

O chão do meu país é vermelho e não estou a falar do sangue desperdiçado em quase 40 anos de guerra.
O céu do meu país é azul e não interessa se é mais claro ou mais escuro que o da Europa.
Os meninos, no meu país, divertem-se e muitos nunca viram um brinquedo.
Os pais, no meu país, inventam a única refeição diária com as estórias de um dia passado à procura de comida.
Em Angola o mar é imenso e o deserto também vive.
De Angola, as histórias que se ouvem não são todas verdade.
O meu país tem pernas para andar!

Terça-feira, Maio 03, 2005

descartável

O princípio do descartável domina grandemente a nossa vida contemporânea. Desde as coisas insignificantes: os embrulhos dos chocolates e dos rebuçados são para largar por aí. Longe vai o tempo em que os rebuçados eram embrulhados em figuras de bichos que os miudos coleccionavam religiosamente; quem é que se lembra como era difícil conseguir o bacalhau! Dos embrulhos dos rebuçados, rapidamente passámos para outras escalas. Vieram os pratos e os talheres descartáveis, as fraldas descartáveis, as ambalagens descartáveis, as lentes de contacto descartáveis e uma imensidade de coisas que se usa e deita fora. É possível que psicologicamente isto tenha tido algum efeito no comportamento profundo das pessoas. De certo modo, andamos constantemente a descartar-nos uns aos outros. A descartar compromissos (havemos de ir almoçar um dia destes, desculpa mas afinal vou ter que anular aquela ida ao cinema, etc.) e finalmente a descartar sentimentos. Estamos mais disponíveis para sentir a ondulação dos sentimentos (as pequenas paixões e as pequenas irritações) mas raramente disponíveis para viver as correntes profundas da vida. Antigamente falava-se em sociedade de consumo, o que era uma expressão de certo modo inapropriada, uma vez que todas as sociedades humanas pressupõem uma economia de consumo. Hoje, uma sociedade descartável é porventura outra coisa: uma sociedade que pode ter talvez um horizonte sombrio - a possibilidade de descartar o humano.

Segunda-feira, Maio 02, 2005

homenagem a Escher

homenagem a Escher
Originally uploaded by daniel tércio.
tirei esta foto com uma máquina lomo (low tech) em Abril de 2005

Domingo, Maio 01, 2005

Timor e Catolicismo

As notícias que chegam de Timor são um bocado preocupantes. Refiro-me às manifestações contra o poder político eleito – em especial contra o primeiro-ministro Alkatiri – por causa da disciplina de Religião e Moral no ensino público. O governo decidiu – e bem – que aquela disciplina, dada exclusivamente no âmbito do catolicismo dominante - não teria que ser obrigatória no sistema de ensino. Isto gerou um movimento de constestação “apadrinhado” pela própria igreja católica local. Os contestários exigem que a religião e moral CATÓLICA seja obrigatória na educação dos jovens timorenses. As manifestações que se prolongam teimosamente há algumas semanas tiveram há pouco mais de 24 horas um triste episódio de interrogatório e agressões a dois cooperantes portugueses apanhados no coração dos manifestantes. As autoridades eclesiásticas assistiram a tudo e no fim desculparam os agressores.
Como é que se chegou a isto?
É conhecida a importância que a Igreja católica foi ganhando no território timorense. Durante anos, a generalidade dos portugueses olhou com simpatia (lembram-se das orações no cemitério de Santa Cruz e do Nobel D. Ximenes Belo?) essa faceta da “cultura”, que nos igualava como “irmãos separados” por oceanos infindáveis. Além disso, dizia-se romanticamente que o catolicismo timorense se tornara uma religião de resistência à ocupação indonésia. Um Padre Nosso rezado em português tornava-se assim qualquer coisa de arrepiar.
Para quem, como eu, passou algum tempo (no meu caso cerca de dois meses e meio) em Timor, as coisas foram mudando de figura. Em primeiro lugar, todos nós (os professores que lá estavam em missão durante o ano 2000) tivemos que ceder uma parte das nossas aulas para as rezas iniciais e, em alguns casos, para as Avé Marias finais. Pessoalmente, procurei sempre manter-me à margem dessas manifestações de religiosidade. Mas isto seria secundário relativamente a outros episódios que fui presenciando: o ataque à mesquita muçulmana por católicos; o encerramento de um restaurante-bar em Baucau (por ordens do respectivo Bispo) porque as empregadas usavam saias por cima do joelho; e sobretudo o silêncio da Igreja relativamente aos abusos sexuais a que as jovens timorenses são submetidas frequentemente dentro de famílias supostamente católicas. O tempo em que estive em Timor não foi longo e muitas destas coisas têm a natureza das impressões. Também é verdade que estas impressões não anulam uma outra maior: a da doçura e da diversidade de um povo e a da beleza de uma terra.
Mas as outras impressões, somadas aos episódios recentes, levam-me a recear que Timor se torne um Estado-católico no século XXI. Na verdade, a cultura ocidental está sempre bastante pronta a acusar os regimes islâmicos de ausência de laicidade, e não vê o que se está passar com os novos cristianismos fundamentalistas. A democracia timorense é extraordinariamente frágil para suster estas tendências fanáticas. Alkatiri está lá – julgo que a fazer um bom trabalho – e o facto de ter sido eleito pela maioria do povo timorense é aquilo que lhe dá a autoridade para decidir esta coisa tão simples e tão justa que é a seguinte: quem não for católico não será obrigado a frequentar umas aulas onde se ensina que não há salvação fora de Cristo e onde se bate no peito de arrependimento e onde se listam os pecados.