Sexta-feira, Maio 27, 2005

O Cego Astrólogo

Num certo folheto de cordel, intitulado "O Cego Astrólogo", de 1741, consta a seguinte passagem, verdadeiramente escatológica:

“Sabem vossas mercês que mais? Que desde que no ano passado me casei, ou casaram com a formosa sanfona, anda tão alegre, ainda que faminto, o meu bandulho, que só sinto bailarem no meu estomago folias, sarambeques, arrombas, arripias, oitavados, e toda a inquieta berundanga de minuetes; e com impaciência esperam os meus intestinos, para se descarregarem desta impetinente fadiga, as visitas ocidentais do catalicão, e jeropiga. Rebento, senhores, se não canto ,e danço; e pois a minha fome só se cura com músicas, pelo que tem de semelhança com as mordeduras da tarantula, quero cantar, quero dançar, quero-me alegrar, e pese a quem pesar.”

Quinta-feira, Maio 26, 2005

mulher

Mergulhando nos teus olhos
vi extensas planícies de liberdade.
Por um instante pareceste
a terra feita mulher.

Terça-feira, Maio 24, 2005

Extracção da pedra da loucura

Nos séculos XV e XVI a extracção da pedra da loucura foi tema iconográfico recorrente.
Ei-lo numa representação da autoria de Bosch.

Uma pedra no cérebro

O meu cérebro é como um tecido esticado. Tu és uma pedra que caiu na superfície elástica do meu cérebro e que eu tento arrancar de lá. No meu cérebro persiste a deformação da pedra que aí se alojou. Também não tens ajudado minha pedra da loucura. Mesmo sem lá estares, permanece uma reentrância no tecido esticado do meu cérebro. Como a roupa que é posta a secar na corda e que mantém a lembrança das molas que a seguraram. Quantas vezes não pus de lado essas peças de roupa que as molas tinham deformado… Mas eu não posso pôr de lado o meu cérebro, não o posso deitar fora. Também não posso deitar fora as minhas mãos, não posso substituir as linhas das minhas mãos pelas linhas de uma outra vida. Olho para a minha mão direita, comparo-a com a mão esquerda. O que é que eu posso fazer com as linhas das minhas mãos…

Segunda-feira, Maio 23, 2005

Uma história dita

Um dia, sentou-se à frente do computador e os dedos ficaram duros. Nos dias seguintes sucedeu o mesmo. Os seus olhos iam do monitor para o teclado, ansiosos, mas os dedos, esses, recusavam-se a escrever o que devia ser escrito. Passaram-se semanas sem que produzisse uma única frase digna desse nome. James sabia que era preciso estar num certo estado para que a escrita fluisse como um curso de água. Com muito esforço, quando se empenhava a sério, lá nascia esta ou aquela palavra, embora a maior parte das vezes fossem letras, nada mais do que sucessões aleatórias de letras e sinais. Em certas ocasiões, suspeitava que era ele quem não via o sentido do que ia dolorosamente digitando. Insistiu. Passaram-se meses, e James chegou a encher páginas e páginas com associações de sinais que ficavam a pulsar futilmente. Coisas do género: esma);s esm que xodduzises uma única fraes d(6); deses z=oe. Com muito es+*hço, quando es =openhava a wirio, lá );scia esta ou aquela palavra, =obora a maior ptrre das vezes fosesm tretras, ). Um dia confessou o que se passava à mulher com quem vivia, mas ela sorriu como sempre fazia quando ele lhe confiava as dúvidas que o atormentavam. James contou-lhe então a história de um escriva egípcio que, certa ocasião, ficara com os dedos duros como pedra ao segurar o estilete. É uma boa história, disse a mulher, por que é que não a escreves? O escritor calou a resposta. De repente, compreendeu que era mais fácil dizer as histórias do que escrevê-las, não porque fosse difícil escrevê-las, mas simplesmente porque, dizendo-as, ele ficava no estado necessário para que a voz corresse como um fluído. A partir desse dia, James arranjou diversas amantes. Visitava-as à vez, sem pensar em nada, nem fazer grandes planos efabulatórios. Bastava deixar pingar os minutos entre ternas carícias, às vezes com o mar ao fundo, outras vezes com o som da cidade a sussurrar do outro lado da janela, às vezes com a pele nua banhada pela luz quente do sol, outras vezes numa penumbra lunar, entre núvens de fumo, ou envolvido pelo ar húmido dos bosques. As horas passavam e invariavelmente, quando a sua companheira do momento sossegava, a vontade fazia-se voz e as histórias surgiam. Diferentes, ditas de um jacto, mas tragicamente curtas.
Uma das primeiras histórias, contou-a ele a uma amante de peito generoso, que não o levava muito a sério. Disse-a, enquanto mordiscava morangos no ventre dela.

Domingo, Maio 22, 2005

Arcimboldo

Arcimboldo
Arcimboldo
Originally uploaded by daniel tércio.
Estudo de figurino da autoria de Arcimboldo.
Séc. XVII.

Mapa e Território

"O território já não precede o mapa, nem lhe sobrevive. É agora o mapa que precede o território - precessão dos simulacros - é ele que engendra o território cujos fragmentos apodrecem lentamente sobre a extensão do mapa."
Baudrillard, "Simulacros e Simulação"