As possibilidades do corpo falar são praticamente incomensuráveis. Estamos habituados a reduzir a fala do corpo aos exercícios produzidos pelo aparelho fonador e, mesmo assim, excluímos da noção de fala alguns dos ruídos que voluntária ou involuntariamente produzimos com a boca. Arrotar, por exemplo, nas sociedades ocidentais não é normalmente considerada uma modalidade legítima de fala; são excepção os arrotos dos bébés (que o devem fazer após o leitinho) e os arrotos no seio dos grupos de adolescentes e de jovens (onde a rebeldia ou mesmo a liderança pode ser proporcional ao volume sonoro do arroto). Obviamente que há razões, digamos que objectivas, para não se considerar um arroto uma manifestação elaborada de uma ideia através de um som. Realmente, um arroto produzido após por exemplo um abundante cozido à portuguesa pode querer dizer, tanto que se está satisfeito, quanto que se está à beira de uma indigestão; e sobretudo, esse arroto é insuficiente para comentar a qualidade dos enchidos, ou o sabor da carne de porco, ou a macieza da feijoca; aí, se queremos tecer loas ao pitéu, temos mesmo que articular palavras numa das milhares de línguas conhecidas, desde o inglês ou o português, ao dialecto mais perdido da micronésia. Por outro lado, não deixa de existir uma fala involuntária do corpo, que é particularmente interessante em determinados contextos. Obviamente que existe uma linguagem gestual, sobre a qual é possível construir códigos quase tão elaborados quanto os códigos verbais. Mas existe ainda um outro nível mais profundo de fala, que é a fala reservada aos contactos mais íntimos. Pousar a cabeça sobre o ventre de alguém e escutar o interior do corpo do outro. Será que esse outro corpo nos está a dizer alguma coisa? Está certamente… Mas que coisa é essa que ele nos diz? Essa é a fala das vísceras, a fala profunda de um corpo, que tem uma outra camada de autenticidade; uma voz que ruge “tenho fome”, uma pulsação que se abre para logo se retrair, um murmúrio que diz “quero-te”, algo que sopra, que se enovela com uma energia inusitada. Pode ser assustador escutar - e deixar escutar - a profundidade visceral do corpo. Mas pode também ser uma enorme fonte de prazer.