Sexta-feira, Junho 24, 2005

Arlequim


arlequim
Originally uploaded by daniel tércio.
Uma das maschere da Commedia del'Arte

A categoria do grotesco

O grotesco é, assim o creio, um tema onde se combinam três forças: transgressão, tradição e identidade. O seu potencial transgressor é, desde logo, justificado (por vezes apenas tolerado) pela tradição, funcionando ao mesmo tempo como afirmação identitária de um determinado gupo social. Disseminado pelo território nacional, o grotesco atravessa diferentes linguagens da cultura expressiva: desde os barros de Barcelos à cerâmica fálica das Caldas, passando pela pintura dos painéis dos barcos moliceiros e pelas “pulhas” beirãs. Existem também elementos grotescos (e burlescos) nas práticas festivas contemporâneas, algumas das quais remontam a épocas mais ou menos remotas. Assim é, por exemplo, em certas manifestações bailatórias como a dos “caretos” de Trás-os-Montes ou a “dança dos mancos” na festa de S. Gonçalinho em Aveiro. Haveria também lugar para enveredar pela identificação do grotesco na história da Dança em Portugal: desde a persistência para além do séc. XVIII do travesti nos palcos dos teatros, até às imagens escatológicas e viscerais da dança que abundaram em Portugal nesse século. Para o ilustar, eis uma breve transcrição de um folheto de 1741, intitulado O Cego Astrólogo. O texto não é propriamente saboroso, mas é certamente estimulante e paródico...
“Sabem vossas mercês que mais? Que desde que no ano passado me casei, ou casaram com a formosa sanfona, anda tão alegre, ainda que faminto, o meu bandulho, que só sinto bailarem no meu estomago folias, sarambeques, arrombas, arripias, oitavados, e toda a inquieta berundanga de minuetes; e com impaciência esperam os meus intestinos, para se descarregarem desta impetinente fadiga, as visitas ocidentais do catalicão, e jeropiga. Rebento, senhores, se não canto ,e danço; e pois a minha fome só se cura com músicas, pelo que tem de semelhança com as mordeduras da tarantula, quero cantar, quero dançar, quero-me alegrar, e pese a quem pesar”.

Quarta-feira, Junho 22, 2005

Lua e Marte

Nos últimos dias tem estado lua cheia, uma lua enorme, onde quase se entrevêem as crateras provocadas pela queda violenta de meteoros. A lua tem um efeito interessante no comportamento do mar. E como tão bem sabem os índios norte-americanos, tem também um efeito no comportamento das pessoas. Os acontecimentos podem ser medidos em luas, as marés são em grande parte o resultado da atracção gravitacional da lua e é possível que os desejos (dos sátiros e das ninfas - e dos homens e das mulhares) sejam verdadeiramente inspiradas pela proximidade da lua.
Agora, imagina que estavas em Marte. Em Marte há montanhas e planaltos imensamente altos que envergonham os nossos Himalaias. Olhavas para o céu avermelhado de Marte e vias, não uma, mas sim duas luas. Duas luas pequeninas, é certo; PORÉM, duas verdadeiras luas que diisputam entre si os desejos dos nativos. Mas como em Marte parece que POR ENQUANTO não há nativos, as duas luas estão lá à espera dos primeiros colonos terrestres. Quando lá chegarmos vamos pesar um bocadinho menos, porque a gravidade marciana é diferente da nossa. Por exemplo, em Marte, eu pesaria para aí uns sessenta quilos e tu muitíssimo menos...

Segunda-feira, Junho 20, 2005

Un Chien Andalou

Un Chien Andalou Un Chien Andalou
Originally uploaded by daniel tércio.
Parece que a famosa fita experimental de Salvador Dali e de Luis Buñuel, de 1928, teve como ponto de partida apenas estas duas certezas: não haveria cães, nem seria filmada na Andaluzia!

Domingo, Junho 19, 2005

Multiculturalismo ou integração?

A sociedade portuguesa anda desde há muitos anos a adiar diversas discussões. No pressuposto de que os portugueses não são racistas - pressuposto que se relaciona com a história mítica dos Descobrimentos - uma boa parte da opinião pública envereda com a maior das facilidades por generalizações disparatadas acerca dos negros, dos chineses, dos ciganos, dos "de leste" e de outras tantas "raças", incluindo os próprios portugueses. O mito instala-se com facilidade: únicos no mundo da tolerância, nós, os portugueses somos uma espécie de comerciantes da civilização que, obviamente, reside aqui, neste cantinho da Europa, que temos que manter limpo, custe o que custar. É evidente que este é um bom terreno para que o racismo se desenvolva. Num outro plano, os intelectuais não têm sabido colocar a discussão acerca de dois modelos sociais: o modelo multiculturalista e o modelo integracionista. Realmente, necessitamos urgentemente de discutir estes dois modelos... Por exemplo, a legislação deve impedir que uma jovem islâmica vá para a escola pública com a véu islâmico, ou deve proteger as especificidades culturais? A discussão sobre o que é o racismo e sobre a sua expressão em Portugal, e bem assim a discussão sobre o multiculturalismo e integração, são urgentes em Portugal. Sob pena das relações sociais se degradarem progressivamente e crescer o medo irracional e a violência.