O grotesco é, assim o creio, um tema onde se combinam três forças: transgressão, tradição e identidade. O seu potencial transgressor é, desde logo, justificado (por vezes apenas tolerado) pela tradição, funcionando ao mesmo tempo como afirmação identitária de um determinado gupo social. Disseminado pelo território nacional, o grotesco atravessa diferentes linguagens da cultura expressiva: desde os barros de Barcelos à cerâmica fálica das Caldas, passando pela pintura dos painéis dos barcos moliceiros e pelas “pulhas” beirãs. Existem também elementos grotescos (e burlescos) nas práticas festivas contemporâneas, algumas das quais remontam a épocas mais ou menos remotas. Assim é, por exemplo, em certas manifestações bailatórias como a dos “caretos” de Trás-os-Montes ou a “dança dos mancos” na festa de S. Gonçalinho em Aveiro. Haveria também lugar para enveredar pela identificação do grotesco na história da Dança em Portugal: desde a persistência para além do séc. XVIII do travesti nos palcos dos teatros, até às imagens escatológicas e viscerais da dança que abundaram em Portugal nesse século. Para o ilustar, eis uma breve transcrição de um folheto de 1741, intitulado O Cego Astrólogo. O texto não é propriamente saboroso, mas é certamente estimulante e paródico...
“Sabem vossas mercês que mais? Que desde que no ano passado me casei, ou casaram com a formosa sanfona, anda tão alegre, ainda que faminto, o meu bandulho, que só sinto bailarem no meu estomago folias, sarambeques, arrombas, arripias, oitavados, e toda a inquieta berundanga de minuetes; e com impaciência esperam os meus intestinos, para se descarregarem desta impetinente fadiga, as visitas ocidentais do catalicão, e jeropiga. Rebento, senhores, se não canto ,e danço; e pois a minha fome só se cura com músicas, pelo que tem de semelhança com as mordeduras da tarantula, quero cantar, quero dançar, quero-me alegrar, e pese a quem pesar”.