Quarta-feira, Junho 29, 2005

Saltarelos

saltarelos
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Originally uploaded by daniel tércio.
As picadas de insectos foram outrora uma das razões mais comuns para explicar a vontade de dançar. A tarantula, por exemplo, era responsável pela fúria bailatória de homens e mulheres. Parece que a dança "Tarantela" tem a sua origem aí. Por vezes, os insectos estimulantes eram associados a certas regiões infernais. Os gafanhotos, ou saltarelos, varriam as searas e punham as pessoas fora de si...

Terça-feira, Junho 28, 2005

álcool

O rapaz tinha cinquenta e um anos, o que fazia dele não exactamente um rapaz, mas sim um homem de meia idade. Agora, no círculo de amigos, todos fingiam que ele tinha qualquer coisa de heróico, por ter saído da pequena cidade, ou antes, por ter conservado uma frescura qualquer, um aroma que todos eles tinham perdido com o passar do tempo. Era curioso o lugar que o álcool ocupava nesse processo. O álcool roubara a frescuras dos anos a cada um dos três rostos que rodeavam o rapaz, embora fosse o álcool e apenas ele que mantinha o elo principal com o passado. O álcool era em certos casos a ilusão da juventude perdida e de outros lugares comuns. Mas o álcool era também uma névoa de consciência. A representação. Verem-se de fora, como outras criaturas. Homens de meia idade a verem-se como rapazes. Na verdade, todos eles se comportavam como rapazes. Especialmente este rapaz: no corpo de um homem de meia idade. Graças ao álcool, ele via-se, não na posição daquele rapaz, mas sim em oposição a esse rapaz que era ele, que se mantinha em silêncio, enquanto os outros, os amigos de antigamente, tinham envelhecido abruptamente, e falavam arrastado, com ele no centro.

Domingo, Junho 26, 2005

Além do terraço

Há uma série de coisas que não chegaram a ser ditas, mas que James veio a descobrir depois, nos braços de outras mulheres. A história seguinte, por exemplo, foi pronunciada num fim de tarde de uma Primavera e precedeu uma noite de amor intenso. Se a parceira gostava de histórias de sexo, James não regateava: a amante receberia telefonemas pela noite dentro. Cabra-cega, por exemplo. Três homens e duas mulheres combinaram jogar à cabra-cega. Vestiram longas túnicas sobre os corpos nus e foram, num fim de tarde de um certo dia, para um terraço de frescas lajes. Primeiro, vendaram um dos homens e fizeram-no rodopiar para um lado e para o outro, depois largaram-no e separaram-se entre risos e carícias. O homem esticou os braços e avançou às cegas, procurando os outros. Uma das mulheres deixou-se apanhar. Quando o homem a agarrou, ela debateu-se por alguns segundos, até que finalmente sossegou quando ele subiu uma das mãos fortes até ao seu ventre morno. É a tua vez, disse ele, tirando o lenço que lhe tapava os olhos. Vendaram a mulher, levaram-na para o meio do terraço, fizeram-na rodar cinco vezes para um lado, depois cinco vezes para o outro, e correram para longe dela. Rapidamente ela alcançou outro homem. Este deixou-se agarrar, sorrindo, enquanto as mãos dela lhe erguiam a túnica. Agora és tu, disse ela, sentindo a dureza do sexo dele. Foi este o terceiro cego. Caminhou às apalpadelas pelo terraço, sem saber que a noite chegara, não apenas para ele, mas para todos. Andou para trás e para diante, em busca dos outros. Finalmente, sentiu a pele quente de alguém. Pela curva das nádegas era uma mulher. Fez rodar a mão à procura do ventre dela e no seu lugar encontrou os músculos tensos de um homem. Perturbado, seguiu adiante. Pouco depois encontrou os ombros suados de um companheiro. Deixou as mãos descerem pelas costas dele, sentindo os cabelos escuros de uma mulher. Aproximou os lábios para aspirar o hálito dela. A mulher estava ali, do outro lado, com os seios esmagados no peito do companheiro. E eu?, perguntou baixinho. Por resposta, escutou apenas os suspiros perfumados deles. E seguiu adiante, vendado, caminhando sem destino para além do terraço.