Sexta-feira, Julho 08, 2005

Do tempo das coisas

Todas as coisas têm o seu tempo. O universo está embebido em duração, o que significa que ele existe numa flecha do tempo: a flecha que vai do passado para o futuro. Cada homem e cada mulher acrescentam a este facto a consciência deste facto. O universo corre do passado para o futuro, o que significa que o meu corpo vai sentindo o envelhecimento e que a minha consciência vai lidando com isso de maneira mais ou menos tranquila. A minha consciência lida com a sensação de desaparecimento, de morte, e de duração. E é também isso que faz de mim humano. Mas a minha consciência diz-me que eu não sinto sempre da mesma maneira a flecha do tempo que passa. Por vezes, ela parece rápida, alucinante, outras frenética, por vezes hesitante, outras vezes ainda parece não seguir exactamente uma linha recta. Os historiadores sabem que o tempo, em história, não corre sempre da mesma maneira: sabem que existe o tempo longo das estruturas, o tempo médio das conjunturas e o tempo rápido dos acontecimentos. Em Portugal, existe uma tendência preocupante para confundir estes tempos. Po exemplo, quais as razões conjunturais para encerrar uma companhia de dança como o Ballet Gulbenkian? Não serão razões transitórias da natureza da espuma da onda?

Quarta-feira, Julho 06, 2005

Encerramento do Ballet Gulbenkian

No dia 5 de Julho de 2005 a Administração da Fundação Calouste Gulbenkian emitiu um comunicado anunciando a extinção do Ballet Gulbenkian, a qual deverá estar concretizada até Agosto de 2006. A par com esta decisão está a de cancelar todos os espectáculos de dança que se encontram programados. O fim de uma importante Companhia – certamente a mais importante e destacada Companhia de reportório contemporâneo em actividade em Portugal - não pode deixar indiferentes a comunidade da dança e os públicos nacionais. Pela minha parte, na qualidade de espectador, lembro-me bem que o Ballet Gulbenkian me proporcionou os primeiros espectáculos de dança dignos desse nome, nos longínquos anos 70, quando vim estudar para Lisboa. Ao longo dos anos, fui repetindo a experiência de frequentar o grande auditório Gulbenkian, para assistir a dança contemporânea de qualidade. Há cerca de quinze dias, fui a Viseu, onde assisti, no belíssimo Teatro Viriato, a um interessante programa que reunia uma peça de Clara Andermatt e uma de Paulo Ribeiro, e partilhei com o público que enchia a sala os aplausos francos ao Ballet Gulbenkian. Pelo tempo fora, constatei que a Companhia proporcionava um espaço para o desenvolvimento profissional de intérpretes portugueses e para o aparecimento de coreógrafos nacionais que partilhavam as temporadas ao lado de criadores internacionais tão importantes como Hans Van Manen, Christopher Bruce, Louis Falco, Jiri Kylian, entre muitos outros. Pelo tempo fora, compreendi que o Ballet Gulbenkian cumpria um papel fundamental na criação de públicos de dança e na projecção internacional da dança portuguesa. Por tudo isto, o Ballet Gulbenkian tem sido pois uma peça fundamental na História recente da Dança em Portugal, mas também um laboratório do futuro da dança.
Verifico agora que a Adminstração da Fundação Calouste Gulbenkian, no comunicado que acabou de emitir, se enganou no tempo do verbo. Com efeito, não é justo dizer que o Ballet Gulbenkian foi tudo aquilo que atrás se enumerou telegraficamente, mas há que dizer antes que o Ballet Gulbenkian tem sido tudo isso e muito mais. E que, sob a recente direcção de Paulo Ribeiro, a companhia não enjeitou os instrumentos para interferir qualificadamente no futuro da dança em Portugal.
As necessidade elencadas pela Administração da Fundação - garantir uma boa qualidade profissional de bailarinos; proporcionar experiência de iniciação profissional; proporcionar experiência de coreografia; permitir o acesso do público fora de Lisboa e do Porto à produção de qualidade; possibilitar a confrontação de bailarinos, coreógrafos e das próprias companhias com outras produções e outras linguagens, que se apresentem em Portugal de forma descentralizada; e apoiar a internacionalização e a exposição das companhias portuguesas a outros públicos no estrangeiro – tais necessidades têm tido ao longo dos anos resposta positiva por parte do Ballet Gulbenkian. Não se compreende pois que a Adminnistração da Fundação invoque tais necessidades para justificar a decisão de encerrar justamente uma das entidades que melhor lhes tem dado resposta.
A não ser que a questão não seja exactamente a de responder a tais necessidades, mas antes uma outra coisa: a “necessidade de cursos de formação profissional, a ausência de formação profissional contínua e a falta de locais e de laboratórios de pesquisa e experimentação”, conforme se pode ler no dito comunicado. Observação vaga, genérica, que ainda assim poderia também ser cumprida pelo Ballet Gulbenkian, como efectivamente era (lembremo-nos, por exemplo, dos estúdios coreográficos, de onde saíram coreógrafos contemporâneos portugueses como Vasco Wellenkamp, Elisa Worm, Olga Roriz, Benvindo Fonseca, etc). O comunicado, no entanto, adianta algo mais ao identificar a intenção em reforçar “a área da dança e da coreografia no âmbito do Programa Gulbenkian de Criatividade e Criação Artística”.
Neste ponto há que dizer que existe um equívoco de base. É certo que cursos de 3, 4, ou 5 meses, na area da coreografia, do teatro, ou do cinema, podem resultar em dois ou três trabalhos interessantes; concedo que podem ter a sua utilidade e parecerem muito interessantes ou proporcionarem uns serões para uma certa inteligentzia. Mas, nenhum desses cursos é suficiente para fazer um criador. A montante desses curtos períodos de formação existe certamente uma outra formação, realizada em escolas (em muitas daquelas de que facilmente se diz mal), uma formação silenciosa, por vezes quase anónima, mas indispensável. E a jusante desses meses intensos que a Gulbenkian proporciona, existe o terreno: as salas e os programadores e a concorrência dura. Qual a resposta da Administração da Fundação Calouste Gulbenkian a estas questões? E sobretudo por que é que essa resposta, qualquer que ela seja, tem que passar pelo encerramento do Ballet Gulbenkian? A não ser que exista aqui a lógica do abutre: a de comer sobre os despojos de um corpo...

Segunda-feira, Julho 04, 2005

Mourisca


mourisca processional
Originally uploaded by daniel tércio.
Pormenor de uma tapeçaria comemorativa das vitórias de D. João de Castro na Índia.
A imagem em apreço representa muito provavelmente uma dança mourisca, na sua forma processional.