Sexta-feira, Julho 15, 2005

Gulbenkian: deixa-os pousar

O recente encerramento do Ballet Gulbenkian continua a produzir efeitos insólitos. O último foi uma declaração do Dr. Santana Lopes anunciando estar disposto a apadrinhar novo fôlego da Companhia. Sabendo, por um lado, a vocação que o Dr. Santana Lopes tem para casamentos (sejam os dele, sejam os de terceiros) e, por outro lado, a respectiva sede de protagonismo , compreende-se esta vontade de apadrinhamento. É óbvio que nada disto é sério e certamente nada estudado. Se, por absurdo, a CML adoptasse uma estrutura como o Ballet Gulbenkian, o Ballet Gulbenkian transformar-se-ia noutra coisa que não uma companhia contemporânea de dança. A dimensão nacional e internacional do Ballet Gulbenkian, o seu orçamento, o peso da máquina de produção, tudo isso não é conciliável com burocracias e desejos de políticos regionais. Uma Câmara que nem sequer consegue resolver a devolução do palácio Tancos (ocupado por uma defunta Companhia de Dança de Lisboa) jamais conseguiria suportar um esboço que fosse do Ballet Gulbenkian. A piada das declarações do Dr. Santana Lopes é que já obrigaram a Ministra da Cultura - por insistência da comunicação social - a manifestar a sua disponibilidade para estudar o assunto. Uma vez mais nada disto é sério. É evidente que o Estado português não vai suportar - não o pode fazer na actual conjuntura, nem tem que o fazer qualquer que seja a conjuntura - o Ballet Gulbenkian, por muitos acordos que se façam, a dois, a três ou a quatro. A verdade é que esta é a primeira vaga após o funeral feito à pressa. Os familiares ainda se mostram chorosos, mas já começam a afiar o dente. Há outros, dentro da Fundação Calouste Gulbenkian, que aguardam o leitura do testamento. Para estes, desejavelmente, a leitura deve decorrer (se é que já não decorreu) numa sala resguardada de olhares públicos. Um sítio recatado onde se pode dividir o património e distribuí-lo por novos programas e novos protagonistas. A coisa tem a ver com orçamento, mas também com poder. Tudo coisas apetecíveis.
O que sobra para o grande público é apenas uma grande tristeza pelo desaparecimento do Ballet Gulbenkian!

Quarta-feira, Julho 13, 2005

Lugares (sem cedilhas)

"Somos um país rico", mas só temos duas estacoes do ano: a estacao seca (cacimbo) e a estacao das chuvas (usam chamar-lhe verao). E é perfeito, pois chove quando há calor e, quando há frio, nunca aparece aquela chuvinha inconveniente de gelar os ossos de quem já os tem demasiado à mostra.
Ontem atrevi-me a um passeio fora de Luanda. E lá estavam eles, os imbondeiros; imponentes. A árvore de culto. Os troncos bué grossos abracados como gente possuindo-se, os ramos a saírem por cima com poucas folhas. Parados no meio da terra cor de laranja; as mukuas penduradas.
Lá mais para a frente comprei uma, no mercado.
Em casa lembrei o sabor daquele refresco que a velha lavadeira da minha avó fazia para nós. Às escondidas.
Bebi sozinha. Ninguém mais quis provar. Confesso que fiquei mesmo com aquela expressao só nossa: cara de mukua, mas...
Ok, sem maka. Estava a kuiar, assim mesmo.
É cacimbo, mas só vai durar tres meses. Como sempre.

Terça-feira, Julho 12, 2005

Memória de Timor

Não ouças a minha voz. Escuta antes a quente pulsação da terra. É verdade que eu quero que sintas o timbre do meu sopro, o gosto da minha saliva, o toque da minha mão. De ti conservarei sempre a paisagem. Aprendi pois que também os pequenos territórios contêm incomensuráveis riquezas. Na tua pele, os acidentes escondem, ou revelam, não sei, planos infinitos. Nas tuas fantasias revejo-me desmultiplicado.
O Debeu, o dobeu furak.

Segunda-feira, Julho 11, 2005

Memória de Timor

Entre as montanhas, nos vales de Timor, existem árvores magníficas. São as madre-café, as árvores gigantes, de copas belíssimas, sob cuja sombra crescem os cafezais. Hoje penso que uma árvore assim, tão alta, tão digna, tão esplêndida, tem que ter raízes profundíssimas que hão-de alcançar forçosamente certos níveis infernais.
Cada monte tem sulcos, rugas ou cicatrizes, não sei. São talvez as lágrimas de Timor a abrirem linhas na terra viva da ilha. Nas imediações de Maubisse descemos por um desses caminhos, um carreiro interminável com a terra a esboroar-se sob as botas. Camuflado na paisagem, um timorense ia dizendo "direita", "esquerda", para evitar que nos perdessemos. Foi ele que nos indicou o caminho de volta ao quartel de Maubisse, antes que a noite caísse rápida, como sempre acontece nos trópicos.
A noite.