Sexta-feira, Julho 22, 2005

O Terror

O terror está aí, ao virar da esquina. A polícia inglesa baleou à queima roupa um suspeito de terrorismo numa estação do metro, em Londres. Porque é que o homem era suspeito? Porque não parou quando lho ordenaram, porque ia a correr, porque levava uma saca e porque era oriental. Foi isto que a comunicação social disse.
Infelizmente, o meu post de segunda feira passada começa a fazer demasiado sentido. Se o terrorismo são os outros, o terror está em nós próprios. Umas pálpebras exóticas ou uma tonalidade da pele podem ser suspeitas. Viver na suspeita é viver sempre nas imediações do terror. E a suspeita não se detém em características precisas. Às tantas, pode-se suspeitar de um olhar, de um subtil esgar, de um sorriso, ou até de um silêncio.

Nu subindo as escadas

Felizmente o transito era bué. Pedi ao motorista que abrandasse justificando-me com o carro da frente.
Estava a segui-lo havia já algum tempo. Não era nada que não tivesse visto ainda, mas... pensei que passada a guerra talvez já não tivéssemos de enfrentar aquela nudez inconscientemente assumida.
Nas costas avermelhadas pelo pó, os dread locks que o tempo fez, enfeitados com restos de comida podre em cada dia recuperados nos contentores do lixo. Na cintura, um fio. Nada mais sobre um corpo infinitamente mais perfeito que a mais bela e alva das “esculturas gregas”.
Chegado ao topo, o homem voltou-se. De frente para quem contornava a rotunda do hospital Josina Machel, ergueu o braço direito e com um sorriso assim... falou duas ou três palavras com voz rouca.
As mulheres que passavam escondiam o rosto com as mãos, as crianças pequenas riam e os homens respondiam-lhe em tom agastado. Um apanhou mesmo uma pedra, ali solta, daquela calçada outrora portuguesa.
Tal como a velha que a tudo assistia sentada no segundo degrau, abanei a cabeça. Em que pensava ela? E eu?
E ele? Lembrar-se-ia que tinha perdido a mulher e os filhos numa emboscada, no tempo em que foi militar?
Já não vi quando o jipe da polícia parou e “lhe atiraram sem modos, o maluco, na parte de trás. Arrancaram com o gajo na esquadra!”
Já não vi quando lhe interromperam a liberdade plena em que vivia, vadiando a sua sobrevivencia pelos itinerários infindáveis que inventava nas ruas de Luanda. E a loucura não o deixando perceber que todas as vezes que subia as escadas, aquela nudez imposta desafiava-nos, perturbadora. Não por ser perfeita. Apenas por denunciar o lado torpe da justiça de que “Eles” não se envergonham.

Terça-feira, Julho 19, 2005

perder-te

Sendo um verbo, "perder" é também um estado. Perder pode referir-se a objectos, a lugares ou a pessoas. Pode ter a ver com os outros ou com nós próprios. "Acabo de perder a minha carteira", "às vezes perco a cabeça", "perdi o meu tio no ano de...", "perdi a inocência no dia em que...", "perco o norte".
Dizer: "estou perdido!" é certamente diferente de afirmar "ando perdido...". Mas ambos são estados, um que perdura mais do que o outro, mas ainda assim com semelhanças. Digo "estou perdido", por exemplo se me encontro numa praça de uma cidade que desconheço; digo "ando perdido" se, por exemplo, uma paixão faz esboroar os lugares que conheço. Perder tem a ver com espaço. E também com tempo.
É possível que perder seja realmente o verbo mais persistente durante o tempo da vida, ultrapassando mesmo a morte, na medida em que, então, nos tornaremos também nós próprios objecto de perda para os outros.
Mas se eu digo "perdi-te", eu sei que isso nunca é inteiramente definitivo. Porque na verdade tu continuas a habitar-me, pelo menos a habitar-me a memória. Por isso "perder" remete para um estado de transição - é sempre um meio caminho, ou antes, uma planície mais ou menos acidentada entre um abismo e uma montanha inexpugnável. À medida que eu caminho por esta planície, vou "perdendo" a paisagem nas minhas costas, que, apesar disso, conservo na minha memória e condiciona a direcção dos meus passos; se eu viro naquele ponto, ou acelero, há coisas que perco e outras que ganho.
"Perder-te" é ganhar uma outra memória de ti, ganhar uma outra ausência em mim, renovar no meu corpo um novo lugar para o humano.

Segunda-feira, Julho 18, 2005

A identidade dos bombistas de Londres

A identidade dos bombistas de Londres tem enchido nos últimos dias a comunicação social ocidental. De frames retiradas dos videogramas do metropolitano londrino, a resumos biográficos de simpáticos jovens, vamos sendo prendados por migalhas de informação suficientes para alimentar um certo imaginário. A primeira ideia que se instala é a de que um perigoso terrorista pode existir debaixo da pele do jovem indiano que vive no apartamento do lado e que nos cumprimenta educadamente todas as manhãs. Ou seja, que um terrorista está longe de ter o fácies de uma besta humana ou o comportamento inóspito de um assasssino contratado. Ele está mesmo ali ao lado, pode ser uma pessoa das nossas relações. Em boa verdade, cada um de nós (basta ter a pele um bocadinho mais escura) facilmente poderá ser encarado como um potencial bombista. Instala-se assim uma lógica poderosa: a lógica da desconfiança. A médio prazo passar-se-á a olhar o outro - primeiro o outro com uma cor de pele diferente, ou com uma pálpebras diferentes, ou com um cabelo diferente - como objecto de vigilância, mesmo que ele tenha nascido aqui, sempre tenha vivido aqui e tenha frequentado as mesmas escolas que nós próprios. Se o terrorista-bombista é o outro, há pois que assinalar os traços que nos distinguem do outro. E isto vai cavar necessariamente as diferenças, vai avolumá-las e ampliá-las de maneira paranóica. O processo adivinha-se ele próprio no âmbito do terror.
O que é extraordinário é que tudo isto se apoie sobre algo que tem ainda os traços de uma ficção. Com franqueza, custa-me a crer que a polícia e a espionagem britânicas tenham encontrado tão rapidamente uns suspeitos tão jeitosos para as bombas de Londres. Aqueles jovens dos subúrbios, ingleses é certo, mas de origem árabe, com mochilas às costas, a entrar na estação do metro, estão mesmo calhados para suspeitos principais. Com uma vantagem: é que morreram; ou seja, não podem ser ouvidos a propósito do assunto.
Apenas como hipótese: imagine-se que a identidade destes quatro jovens serviu apenas para que o aparelho policial justificasse o trabalho e a investigação... e que não passou de uma resposta à pressão da opinião pública e da comunicação social... Uma resposta, apesar de tudo, condicente com o imaginário social contemporâneo que transforma o vizinho de pele escura num tipo esquisito.
Não são só as bombas que são perigosas. É todo este esquema!