Sábado, Julho 30, 2005

Oprah

A televisão por cabo trouxe aos lares de todo o mundo - incluindo Portugal - o programa da Oprah. Oprah tem conduzido talkshows de extraordinário êxito na América. A oprahmania no entanto não se limita ao continente americano; os fãs multiplicam-se por todo o mundo e ficam agarrados ao televisor para assistir embasbacados às entrevistas conduzidas pela popular apresentadora. Pessoalmente, não me encontro entre os fãs da Oprah, mas reconheço que a senhora é competente naquilo que faz. E reconheço também que e história pessoal da Oprah - uma mulher oriunda de uma família afro-americana muito pobre, que foi conquistando o seu lugar no mundo - funciona bem no mito norte-amerioano do self made man, com a vantagem de o "actualizar" de acordo com as tendências feministas e as quotas étnicas das sociedades contemporâneas.
Mas há uma coisa que me irrita profundamente no programa da Oprah: são os sorrisos e os acenos de cabeça daquela gente (na maioria mulheres) que enche o auditório, gente que a Oprah interpela de vez em quando como representativa do público. Um exemplo: uma senhora que tem sido objecto de sucessivas cirurgias plásticas é entrevistada pela Oprah; o marido da senhora está ao lado, e diz que não suporta mais que a esposa continue a fazer cirurgias; a senhora, chorosa, confessa que não consegue viver sem planear (e sobretudo ser submetida) a nova cirurgia; Oprah faz uma série de comentários a partir de lugares comuns do tipo 'onde está a felicidade', 'se não gostamos de nós próprios, ninguém gostará de nós' e coisas do tipo... Pelo meio as câmaras varrem o público e fixam-se nesta ou naquela pessoa, nas feições compungidas, nos acenos de concordância, ou nos olhares de compreensão.
De vómitos!
E eu pergunto, surpreendido: mas não haverá realmente ninguém a lançar uma boa e velha gargalhada a semelhante enormidade ?!! É sobretudo isso que falta ao programa de Oprah: uma gargalhada. Dezenas de gargalhadas. O sentido do ridículo.
Na verdade, o programa da Oprah está demasiado cheio de um humano fictício. De plástico. Um hamburguer do humano...

Primeiro

Este é o meu primeiro passo na blogosfera. Não tenho grande ideia acerca do que hei-de escrever. Talvez possa começar assim:
Há pouco tempo revi o "Recordações da Casa Amarela" do João César Monteiro. Ele começa o filme citando o primeiro parágrafo do "Morte a Crédito" do Céline. Vou fazer a mesma coisa.

"Aqui estamos mais uma vez sozinhos. Tudo isto é tão lento, tão pesado, tão triste. Dentro de pouco tempo estarei velho. Tudo então se acabará. Tanta gente que passou aqui por este quarto. Disseram coisas, não me disseram grande coisa. Foram-se embora, envelheceram. Tornaram-se lentos e miseráveis, cada qual no seu recanto da terra."

Quinta-feira, Julho 28, 2005

Número de visitas

Uma amiga disse-me um dia: "só escreverei para o teu blog se me garantires que ninguém o consulta". Essa observação fez-me rir e ela nunca aceitou o convite que lhe enviei. Mas, na verdade, o que ela disse, talvez faça sentido. Temos demasiados meios à nossa disposição para falar-escrever-gritar-comunicar e fazemos depender a nossa existência da frequência com que os outros nos escutam. A nossa existência individual está dependente dos sharings particulares. No meu blog existe um contador para medir as visitas. Não é inteiramente fiável, considerando que qualquer passagem fortuita pelo sítio vale como uma visita... Mas enfim, o contador está aí, logo a seguir ao cabeçalho, uma presença tirânica que faz com que valha a pena. Mas valerá reamente a pena? E se a existência começar a estar dependente de um número: de visitas, de amigos e conhecidos do outro lado do messenger, de sms e de call me, ou de simples toques pelo telemóvel. Já ninguém escreve uma simples carta, nem sequer um postal, uma daquelas coisas que antigamente se guardavam e que amareleciam e que talvez até nos comprometessem mais tarde. Produzimos informação (conteúdos?!) desalmadamente, apenas para garantir que não somos esquecidos. Para evitar o silêncio e a invisibilidade.

Quarta-feira, Julho 27, 2005

Ballets Russes

Ballets Russes
Ballets Russes
Originally uploaded by daniel tércio.
Folha do programa da presença dos Ballets Russes de Sergei Diaghilev em Lisboa, no teatro São Carlos. A vinda da famosa Companhia a Portugal pode não ter merecido grande entusiasmo do público, mas suscitou um texto-manifesto a Almada Negreiros.

Segunda-feira, Julho 25, 2005

The Doppler Effect

Christian Doppler, no início do século XIX, descobriu a modificação de frequência numa onda sonora. A descoberta tem a ver com a nossa experiência do dia a dia. Por exemplo, quando, parados no meio da rua, escutamos a sirene de uma ambulância, percebemos que o som é diferente consoante a proximidade e a velocidade do veículo. Quando a ambulância se aproxima, o som torna-se mais agudo e, à medida que se afasta, mais baixo. Na perspectiva de que a onda sonora da sirene se altera relativamente a um observador, e que essa alteração se coaduna com determinados padrões, pode-se determinar a distância a que o objecto se encontra, bem como a velocidade a que ele se aproxima ou se afasta.
Esta descoberta tem tido uma aplicação fundamental em astrofísica. A partir deste conceito, aqui apenas apontado de maneira muito esquemática, é hoje possível determinar a aproximação ou afastamento de outras estrelas relativamente ao sistema solar. Os padrões sonoros são, neste caso, transferidos para padrões cromáticos, o que permite por exemplo obter um mapa de cores do céu estrelado.
Talvez seja também possível ver as relações entre as pessoas com base nos “padrões Doppler” (e esta é uma ideia pessoal…). É claro que aqui estamos já bastante próximo do território das metáforas. Mas digamos que existe aqui uma matéria interessante para reflectir. A aproximação e o afastamento físico de algumas pessoas relativamente a nós próprios tem uma riqueza de coloração proporcional à velocidade com que isso acontece; o padrão cromático de uma pessoa que se aproxima e se afasta velozmente é diferente do padrão cromático de alguém que está fisicamente presente ou que se move na nossa órbita. Não se trata de um ser mais interessante do que o outro, mas sim de ambos acuparem lugares significativos na variedade cromática da alma humana. Mas há ainda um outro aspecto decorrente do efeito Doppler… É que, da mesma maneira que um observador parado na rua escuta o som da sirene de maneira diferente da escuta do condutor da ambulância, cada uma das duas pessoas de uma relação humana sentem diferentemente a aproximação e o afastamento, em função do lugar que ocupam nessa relação.

Domingo, Julho 24, 2005

O Terror II

Afinal, depois de alguém garantir que o homem baleado pela polícia londrina era um perigoso terrorista, as notícias finais identificam-no como um anónimo brasileiro a viver em Inglaterra desde há três anos. A polícia já veio pedir desculpa e o governo de Lula exigiu explicações mais genuínas.
É possível que o combate ao terrorismo acarrete vítimas que nada têm a ver com o caso. Mas a pergunta que se pode fazer é se esta é a maneira certa de combater o terrorismo, ou se é exactamente a maneira mais conveniente para a Al Quaeda e quejandos...