Antigamente, aprendia-se nos bancos da escola que os portugueses eram empreendedores e senhores de uma capacidade construtiva invulgar. Nas entrelinhas, toda a gente sabia que a capacidade construtiva lusitana era basicamente um certo jeito para o improviso; ou seja, que o pessoal se foi desenrascando ao longo da História. Depois de 1974, a capacidade construtiva dos portugueses revelou-se de uma nova forma. O contexto ajudou... Com o congelamento das rendas de habitação, uma grande parte dos portugueses teve que pensar seriamente em comprar casa. É claro que já existia uma certa predisposição para isto: ter uma casinha sua é uma daquelas coisas que todo o português deseja.
Uma casinha nossa é, antes de mais, uma oportunidade única de exercer a capacidade construtiva. Por exemplo: um casal de portugueses vai ver um andar modelo, suponhamos, com uma sala e dois quartos; o apartamento agrada, é certo, porém, se o negócio se consuma, a primeira coisa que se faz é mandar fechar a varanda com uma estrutura de alumínio e acrescentar qualquer coisa na marquise e finalmente ganhar mais um quarto, dividindo a sala ao meio. Há também o contrário: se o apartamento tem três quartos e uma sala, um português de gema não descansa enquanto não mandar abaixo uma parede, de forma a ficar com uma sala de jeito, ou seja, um salão. Todas as pessoas que vivem em prédios de apartamentos sabem que pela vida fora vão escutar batuques, marteladas, pneumáticos (sobretudo entre as oito e as dez da madrugada), comandados por vizinhos orgulhosos das transformações construtivas; nos momentos de sossego, esses mesmos que se queixam e resmungam pelo barulho que os outros fazem hão-de planear novas obras no seu próprio cantinho: mudar os degraus da escada, abrir uma passagem para umas águas-furtadas, deitar abaixo uma parede, construir uma garrafeira, levantar outra parede, abrir um nicho numa terceira, ou inventar uma lareira decorativa. É o nosso espírito construtivo!