Ninguém era capaz de pronunciar, ler ou escrever o nome de J. Em pequeno, a mãe atribuiu-lhe toda a espécie de alcunhas e chamava-o para a mesa com um sino, na escola a professora nunca lhe marcava falta porque nunca fazia a chamada para não o melindrar quando chegasse a sua vez, a primeira namorada dizia às amigas que andava com aquele ali e apontava na sua direcção quando passava, nenhuma ourivesaria aceitou gravar o seu nome no interior da aliança da noiva quando se casou, a mulher divorciou-se dele sem dizer nada e para isso bastou fazer um risco incompreensível no lugar da sua assinatura, os filhos não sabiam o nome do pai, os pais nunca souberam o nome do filho.
Certa tarde, entrou armado no Registo Civil, procurou um notário e matou-o a sangue frio. Alguém tinha de pagar.
Quando a policia chegou já ele tinha fugido. Meteu-se no primeiro avião que calhou e saiu num país que nem sabia em que continente ficava. À chegada, num aeroporto desconhecido, viu muitos cartazes com o seu nome escrito, pessoas que procuravam pessoas que nunca tinham visto. Apanhou um táxi e o seu nome estava decalcado na chapa de identificação do motorista. No bar do hotel, três mesas reservadas em seu nome. Na rua, um restaurante com um letreiro luminoso a chamá-lo. Crianças a gritarem o seu nome quando os pais se afastavam. Cães a responderem pelo seu nome. O seu nome gravado na madeira dos bancos de jardim. O seu nome na televisão. O seu nome nos jornais. O seu nome em pulseiras. O seu nome e um numero de telefone numa carteira de fósforos abandonada na calçada. O seu nome em todas as bocas. Em todos os cantos. O seu nome a morder-lhe o cérebro. O seu nome a induzir-lhe a loucura.
Duas semanas depois, encontraram-no morto no quarto de hotel. Ele e cinco frascos vazios de comprimidos. Levaram o seu corpo para a morgue, pesaram-no, mediram-no, abriram-no, tiraram as suas impressões digitais. Quando fecharam a gaveta, uma etiqueta pendurada no dedo grande do pé tinha escrito: Incógnito. Nunca ninguém reclamou o corpo que acabou por ser enterrado em vala comum. O cemitério estava cheio de placas com o seu nome.