Quarta-feira, Agosto 31, 2005

Sereias

Sereias Sereias
Originally uploaded by daniel tércio.
'Vem até nós, famoso Ulisses, glória maior dos Aqueus! Pára a nau, para que nos possas ouvir! Pois nunca por nós passou nenhum homem na sua escura nau que não ouvisse primeiro o doce canto das nossas bocas; depois de se deleitar, prossegue caminho, já mais sabedor. Pois nós sabemos todas as coisas que na ampla Tróia Argivos e Troianos sofreram pela vontade dos deuses; e sabemos todas as coisas que acontecerão na terra fértil.'
[Odisseia de Homero. Trad. de Frederico Lourenço]

Stepford/ Vilamoura


Durante o mês de Agosto instalei-me, como todo o bom português pelintra, duas semaninhas no Algarve a torrar os costados ao sol. Este ano tinha pensado ir a Praga e Budapeste mas como comprei carro não me sobrou dinheiro suficiente. Raios, o que será que me aconteceu: sempre prometi a mim próprio que nunca trocaria nada por uma boa viagem… nenhum objecto ou bem material poderia pôr-se entre mim e a concretização de grandes proezas. E ir a Praga e Budapeste teria sido em grande para mim! Enfim, quando estou deprimido não vou passear de carro a lado nenhum porque a gasolina está cara e eu sou pobre, mas sento-me dentro do mesmo, ligo o rádio e ponho as escovas do pára-brisas a limpar desenfreadamente de um lado para o outro. Ao fim de meia hora estou tão deprimido como no princípio, mas ao menos sei que os vidros estão limpos.
Voltando ao assunto, quando estava no Algarve conheci, finalmente, Vilamoura. Uma hora foi o tempo que lá estive dentro e estive sempre a tentar fazer uma coisa muito simples: encontrar uma saída o mais depressa possível! Na realidade, entrei por engano e, uma vez lá dentro, tentei atravessar depressa e sair do outro lado. Mas nunca encontrei a saída de emergência e tive de voltar para trás. Uma hora. Demorei uma hora a conseguir encontrar o sítio por onde tinha entrado. (Isto lembra-me sempre a primeira vez que estive no Corte Inglês: andei mais tempo à procura da saída que a ver fosse o que fosse e acabei por não comprar nada.)
Agora que escapei, agora que evoco aquela hora de sufoco e agonia, agora que consigo rir do pânico que senti, agora que o pior já passou, olho para trás e tenho pena de não ter tido o sangue frio e a presença de espírito necessários para responder à pergunta que agora me assalta: se tivesse saído do carro e tivesse levantado uma das pontas de um daqueles relvados-alcatifa que eles lá têm, qual seria o país de origem inscrito na etiqueta? Made in China, Made in Corea, Made in Taiwan??? Não tenho dormido a pensar nisto. Praga e Budapeste que se lixem, para o ano estou batido em Vilamoura.

Terça-feira, Agosto 30, 2005

Hotel (quarto nº 237)

Neste quarto, somos dois. E, no entanto, tu não estás aqui. Quando chegares, eu terei partido. À medida que escrevo, tu ainda não chegaste. Apesar deste quarto estar vazio, é nele que fica guardada a memória de quando por aqui passámos.

Croquete humano

Desenganem-se os que pensam que este vai ser um post sobre canibalismo... Não. Este é apenas um post sobre uma das inúmeras práticas veraneantes. Que não deixa ainda assim de ser estranhamente insólita. Como se sabe, à beira mar, há diversas actividades possíveis: desde molhar os pés, a surfar nas ondas, desde mergulhar com botija a chatear os parceiros com motos d'água, desde fazer castelinhos de areia a barrar de creme protector o(a) parceiro(a). Porém, uma das actividades - repito, mais insólitas - praticada em diversas praias nacionais é constituida por alguém se envolver o mais completamente possível de areia, ficar de papo para o ar a alguns metros da rebentação das ondas e finalmente atirar-se à água. Na verdade, esta actividade não se restringe às praias nacionais. Estou mesmo convencido que ela é universal. Por todo o mundo, há gente que a pratica com afinco e regularidade. E não são só os putos (aliás, são cada vez menos os putos). O praticante tipo é normalmente do sexo masculino, ronda os 160 cm de altura e tem claramente mais de 70 kg de peso; a barriga proeminente não é indispensável, mas existindo, dá uma outra dimensão à actividade. A técnica de envolvimento em areia não é complicada, mas ainda assim é de toda a conveniência possuir um corpo roliço para que os grãozinhos se agarrem completa e uniformente à pele; concluida a operação, um sorriso de beatitude desenha-se no rosto do praticante. As pessoas que caminham junto à praia terão que se afastar ligeiramente, olhá-lo-ão com inveja e pensarão: eis um croquete humano!

Hotel (quarto nº 10)

Ninguém era capaz de pronunciar, ler ou escrever o nome de J. Em pequeno, a mãe atribuiu-lhe toda a espécie de alcunhas e chamava-o para a mesa com um sino, na escola a professora nunca lhe marcava falta porque nunca fazia a chamada para não o melindrar quando chegasse a sua vez, a primeira namorada dizia às amigas que andava com aquele ali e apontava na sua direcção quando passava, nenhuma ourivesaria aceitou gravar o seu nome no interior da aliança da noiva quando se casou, a mulher divorciou-se dele sem dizer nada e para isso bastou fazer um risco incompreensível no lugar da sua assinatura, os filhos não sabiam o nome do pai, os pais nunca souberam o nome do filho.
Certa tarde, entrou armado no Registo Civil, procurou um notário e matou-o a sangue frio. Alguém tinha de pagar.
Quando a policia chegou já ele tinha fugido. Meteu-se no primeiro avião que calhou e saiu num país que nem sabia em que continente ficava. À chegada, num aeroporto desconhecido, viu muitos cartazes com o seu nome escrito, pessoas que procuravam pessoas que nunca tinham visto. Apanhou um táxi e o seu nome estava decalcado na chapa de identificação do motorista. No bar do hotel, três mesas reservadas em seu nome. Na rua, um restaurante com um letreiro luminoso a chamá-lo. Crianças a gritarem o seu nome quando os pais se afastavam. Cães a responderem pelo seu nome. O seu nome gravado na madeira dos bancos de jardim. O seu nome na televisão. O seu nome nos jornais. O seu nome em pulseiras. O seu nome e um numero de telefone numa carteira de fósforos abandonada na calçada. O seu nome em todas as bocas. Em todos os cantos. O seu nome a morder-lhe o cérebro. O seu nome a induzir-lhe a loucura.
Duas semanas depois, encontraram-no morto no quarto de hotel. Ele e cinco frascos vazios de comprimidos. Levaram o seu corpo para a morgue, pesaram-no, mediram-no, abriram-no, tiraram as suas impressões digitais. Quando fecharam a gaveta, uma etiqueta pendurada no dedo grande do pé tinha escrito: Incógnito. Nunca ninguém reclamou o corpo que acabou por ser enterrado em vala comum. O cemitério estava cheio de placas com o seu nome.

Segunda-feira, Agosto 29, 2005

Hotel (quarto nº4)

Todos os dias o Herberto apagava uma frase aos poemas que escrevera durante quarenta anos. A princípio, tudo bem, mas ao fim de alguns meses começou a apagar uma parte da sua obra em que as frases ocupavam páginas inteiras. Uma noite, em conversa com a mulher, desabafou:
– Tenho de fazer o que estou a fazer, mas, se continuo a fazê-lo a esta velocidade, apago tudo em duas semanas.
Aterrorizada, a mulher de Herberto resolveu começar a escrever poemas durante a noite e introduzi-los na obra do marido como forma de atrasar o efeito de desaparecimento que o próprio Herberto sofria pois, ao apagar a obra, o poeta apagava largos nacos de si próprio sem se aperceber.
O tempo passou e os poemas nunca mais desapareciam. Por mais que Herberto apagasse, nunca mais chegava ao último poema. Levou a mão à cabeça e respirou de alívio. Afinal a sua obra era mais extensa do que lhe parecera inicialmente e talvez passassem muitos anos antes de apagar tudo. Talvez até, quem sabe, os seus escrito lhe sobrevivessem.
Entretanto, deixou de ter barba e começou a usar saia. Pouco a pouco, foi-se habituando a responder quando na rua o chamavam pelo nome da mulher.