Uma visão de Duchamp a partir de Vila-Matas
No seu Bartleby & Companhia (Assírio&Alvim,2001), livro que pega na personagem Bartleby do conto de Melville para traçar a partir da sua negação da vida uma espécie de mapa da negação da literatura por parte de escritores que, sendo brilhantes, deixaram de escrever, Enrique Vila-Matas refere-se a Marcel Duchamp, incluindo-o na sua lista de artistas do Não, da seguinte forma:
«A vida de Duchamp foi a sua melhor obra de arte. Deixou muito cedo a pintura e iniciou uma atrevida aventura em que a arte se concebia, sobretudo, como uma cosa mentale, no espírito de Leonardo Da Vinci. Quis sempre colocar a arte ao serviço da mente e foi precisamente esse desejo - animado pelo seu particular uso da linguagem, o acaso, a óptica, os filmes e, acima de tudo, pelos seus célebres ready-mades - o que escavacou secretamente quinhentos anos de arte ocidental até a transformar por completo.
Duchamp abandonou a pintura durante mais de cinquenta anos porque preferia jogar xadrez. Não é maravilhoso?
(...)
Subiu Duchamp ao palco no fim da sua vida para receber os aplausos de um público que admirava a sua grande capacidade para, através da lei do menor esforço, enganar o mundo da arte. Subiu ao palco e o homem do Nu Descendo Escadas não teve de olhar os degraus. Por um longo e cuidadoso cálculo, o grande embusteiro sabia exactamente onde estavam esses degraus. Tinha planeado tudo como o grande génio do Não que foi.»
«A vida de Duchamp foi a sua melhor obra de arte. Deixou muito cedo a pintura e iniciou uma atrevida aventura em que a arte se concebia, sobretudo, como uma cosa mentale, no espírito de Leonardo Da Vinci. Quis sempre colocar a arte ao serviço da mente e foi precisamente esse desejo - animado pelo seu particular uso da linguagem, o acaso, a óptica, os filmes e, acima de tudo, pelos seus célebres ready-mades - o que escavacou secretamente quinhentos anos de arte ocidental até a transformar por completo.
Duchamp abandonou a pintura durante mais de cinquenta anos porque preferia jogar xadrez. Não é maravilhoso?
(...)
Subiu Duchamp ao palco no fim da sua vida para receber os aplausos de um público que admirava a sua grande capacidade para, através da lei do menor esforço, enganar o mundo da arte. Subiu ao palco e o homem do Nu Descendo Escadas não teve de olhar os degraus. Por um longo e cuidadoso cálculo, o grande embusteiro sabia exactamente onde estavam esses degraus. Tinha planeado tudo como o grande génio do Não que foi.»


