Sábado, Setembro 17, 2005

Uma visão de Duchamp a partir de Vila-Matas

No seu Bartleby & Companhia (Assírio&Alvim,2001), livro que pega na personagem Bartleby do conto de Melville para traçar a partir da sua negação da vida uma espécie de mapa da negação da literatura por parte de escritores que, sendo brilhantes, deixaram de escrever, Enrique Vila-Matas refere-se a Marcel Duchamp, incluindo-o na sua lista de artistas do Não, da seguinte forma:

«A vida de Duchamp foi a sua melhor obra de arte. Deixou muito cedo a pintura e iniciou uma atrevida aventura em que a arte se concebia, sobretudo, como uma cosa mentale, no espírito de Leonardo Da Vinci. Quis sempre colocar a arte ao serviço da mente e foi precisamente esse desejo - animado pelo seu particular uso da linguagem, o acaso, a óptica, os filmes e, acima de tudo, pelos seus célebres ready-mades - o que escavacou secretamente quinhentos anos de arte ocidental até a transformar por completo.
Duchamp abandonou a pintura durante mais de cinquenta anos porque preferia jogar xadrez. Não é maravilhoso?
(...)
Subiu Duchamp ao palco no fim da sua vida para receber os aplausos de um público que admirava a sua grande capacidade para, através da lei do menor esforço, enganar o mundo da arte. Subiu ao palco e o homem do Nu Descendo Escadas não teve de olhar os degraus. Por um longo e cuidadoso cálculo, o grande embusteiro sabia exactamente onde estavam esses degraus. Tinha planeado tudo como o grande génio do Não que foi.»

Sexta-feira, Setembro 16, 2005

Da violência no cinema

Odeio violência no cinema. Há uns meses atrás, estava eu muito sossegadinho numa sala do Cascaishoping, de mãos dadas no escuro com a minha companheirinha, a rever um dos melhores filmes que vi este ano (Million Dollar Baby), a segurar as lágrimas naquela cena que não posso contar, em que acontece aquela coisa que não posso dizer para não estragar o filme a quem não o viu (embora quem não o tenha visto, mereça que eu o estrague), quando de repente, vindos do nada, como Nossa Senhora quando apareceu aos três pastorinhos, entram na sala três "bullies" prontos a fazer a folha ao primeiro que defendesse o bom nome da mãezinha. E bem que as mãezinhas de toda a gente mereciam ser defendidas, visto que, logo à chegada, os três desordeiros começaram por insultar as respectivas progenitoras de todos os que se encontravam na sala, chamando-lhes aquele nome feio que qualquer um de nós, numa circunstância ou noutra, já chamámos à mãezinha de alguém. Seguidamente, procederam a uma longa caminhada, como quem segue directamente para Santiago de Compostela, através da sala, enquanto falavam em voz alta daquela coisa que aconteceu no outro dia lá no bairro quando a bófia apareceu, blá, blá, blá. Por fim, sentaram-se na primeira fila, não sem antes terem urinado no chão (que é uma coisa chata para quem tem de limpar porque já bastam aqueles bocados de milho ressequido que toda a gente cospe disfarçadamente para a alcatifa), e continuaram a meter-se com as pessoas, prometendo violência, sangue e tripas a todos os que, timidamente, libertaram um ou dois sssssshhhhhhhhh porque queriam ver o filme. A coisa acabou em bem, ninguém levou uma facada no lombo, mas, em mim, reacendeu-se o velho debate da violência no cinema. Depois de muito pensar, a minha resposta é: não à violência!
Algum tempo antes, no Monumental se não me engano, durante a projecção do último filme do Kusturica, um homem teve um ataque cardíaco quinze minutos antes do fim e estragou-me o filme a mim e ao amigo que me acompanhava. É claro que ajudámos a levantar o homem e pedimos imediatamente socorro: queríamos ver como é que o filme acabava e ainda ir para casa a correr para ver se apanhávamos aquele programa da Júlia Pinheiro a falar com os criminosos. Quer dizer, eu não tenho TV Cabo – tenho de aproveitar o que os quatro canais nacionais me oferecem com alguma qualidade! Já para não dizer que, desde então, sempre que vejo um filme do Kusturica, lembro-me daquela série: o "Serviço de Urgência". E essa série é toda um exagero porque basta ir às urgências do Hospital de Cascais para descobrir que os médicos não são nada parecidos com o George Clooney.

A propósito, e para finalizar, o homem do ataque cardíaco sobreviveu e, caso me esteja a ler, desejo-lhe uma vida longa e próspera, aproveitando para afirmar publicamente que não lhe guardo rancor.

Quarta-feira, Setembro 14, 2005

Chamar-lhe um figo

Das muitas expressões com que a língua portuguesa nos brinda para deleite das glândulas que segregam o riso, esta tem de ser uma das minhas preferidas: Charmar-lhe um figo! O que significa? Bom, qualquer coisa como "roubar", "aproveitar", "ficar com", "comer".
«Vi a carteira do gajo, ele 'tava distraído e... chamei-lhe um figo!»; «Se as calças já não te servem, dá-mas cá que eu... chamo-lhes um figo!»; «Como não era de ninguém achei que devia... chamar-lhe um figo!»; «Saímos algumas vezes, paguei-lhe um jantar e depois... chamei-lhe um figo!»
São estas pequenas ninharias que me fazem não compreender quem abandona o país à procura de melhor.