Quinta-feira, Setembro 29, 2005

O Bosque inacabado

Era uma vez uma jovem mulher que vivia, ela e o seu cão, na orla de um bosque. Era uma vez um poeta que tinha deixado de dizer poemas. Certo dia, durante um passeio, o poeta foi ter ao bosque, onde se embrenhou sem hesitações. Caminhou por uma vereda estreita e sinuosa apreciando as flores silvestres, as altas ramadas, aspirando o perfume da terra, escutando os trinados dos pássaros e o vento que soprava entre as copas das ávores. A meio do caminho o poeta encontrou a jovem mulher que colhia cogumelos. Na verdade, foi ela que o viu primeiro, mas nada disse. O poeta aproximou-se da mulher e sentiu que o amor que lhe enchia o peito podia ser outra vez nomeado. O poeta recuperou a inspiração e a jovem mulher tornou-se uma bruxinha encantadora. Porém, desta curta história, não ficaram nem poemas, nem encantamentos, só o bosque sobrou.
Esse bosque tinha um espírito exótico que lera, sabe-se lá como, a Vénus das peles do cavaleiro Sacher-Masoch. Em certos dias, o viajante descuidado que se embrenhasse profundamente no arvoredo arriscava-se a ser açoitado pelas ramagens espessas, e a ter a carne ferida pelos silvedos e a pele irritada das urtigas. Noutros dias, porém, nos dias em que o sol morno abria clareiras no arvoredo, quem se desse ao trabalho de juntar as letras gravadas nos troncos das árvores descobriria uma outra história.

Terça-feira, Setembro 27, 2005

A vacina do tétano.

A minha próxima partida para os trópicos tem-me levado a consultas várias. A primeira foi a "consulta do viajante". O médico, especialista em medicina tropical, marcou-me uma série de vacinas, alguma das quais verdadeiramente assustadoras, acerca das quais não quero falar por simples superstição.
Nenhuma das vacinas podia ser administrada lá na consulta, nem tão pouco podia ser adquirida numa vulgar farmácia. De modo que, para duas delas, eu deveria ir ao serviço de vacinação que, em Lisboa, fica na 24 de Julho. Acontece que das duas, este serviço só tinha uma das vacinas.
Em consequência, fiquei com a simples vacina do tétano por completar. A enfermeira mandou-me seguir para o Centro de Saúde da minha zona de residência; supostamente, era aí - e só aí - que a administravam. Assim fiz. Subi ao terceiro andar do "meu" Centro de Saude, mostrei o boletim da vacinação e a receita do doutor e esperei. A funcionária revirou os olhos e disse-me que a do tétano não tinham. Eu devia telefonar para lá dentro das próximas semanas. "Não posso"", disse eu, "estou mesmo, mesmo, de partida. Será que não posso comprar a vacina numa farmácia?". "Não", respondeu a senhora. E torceu um pouco mais os lábios. "Mas porquê!?" Ela fez um esgar e murmurou: "há problemas com essa vacina". E eu, feito parvo, acrescentei: "o lote... não?". "Problemas... foram todas retiradas", acrescentou a meia voz. "Ah!!". A coisa tinha um tom de cumplicidade e de espionagem. Claro que eu me vim embora sem a vacina do tétano.

Mapas de memória

As histórias que um corpo encerra, as histórias que encerra um lugar, as histórias que atravessam um objecto.
O cruzamento das histórias dos corpos e dos objectos com as histórias dos lugares.
Como é que estes cruzamentos atravessam o tempo em direcção à constituição das redes da memória? Quem selecciona os pontos nodais dessa rede, os resíduos do passado sobre os quais se institui a História? Que descontinuidades temporais se estabelecem hoje no estudo daquilo que foi? Como é que se fundam as narrativas actuais sobre tais descontinuidades?
Há que fundar uma outra maneira de olhar a História, sobretudo a História que é feita com os objectos de arte, como os objectos arquitectónicos e os objectos plásticos. A proposta pode passar pelo estabelecimento de percursos de memória, fazendo do teu quarto - da janela do teu quarto - o ponto de partida. Lisboa, Tóquio ou outra cidade qualquer poderá será o cenário de deambulações. Partir em busca das histórias que encerra cada lugar e das histórias que atravessam cada objecto, para tornar simultaneamente mais densas e mais transparentes as histórias dos corpos.

Domingo, Setembro 25, 2005

Hotel (quarto nº 8)

A morte era tão grande que tinha dificuldade em encontrar sapatos que lhe servissem. Um dia entrou numa sapataria e disse para o vendedor:
– Eu sou o anjo negro e venho comprar uns mocassins.
O vendedor, um pouco assustado, respondeu:
– Com certeza. Mas vai ter de fazer o favor de deixar a foice no bengaleiro.
A morte deixou a foice no bengaleiro.
Perguntou então o vendedor:
– Que número calça?
E a morte respondeu:
– O número π.
O vendedor levou a mão ao queixo, foi buscar uma calculadora, digitou alguns números e depois dirigiu-se ao armazém.
– Volto já, disse ele.
Enquanto esperava, a morte reparou que na rádio passava uma murder ballad do Cash. Assobiou a melodia com alguma satisfação pois ainda há pouco tempo estivera com o cantor. Depois, reparou que em cima do balcão havia uma tesoura aberta, com as lâminas cruzadas, e rapidamente a fechou. A morte sempre fora um bocado supersticiosa!
Quando o vendedor voltou, trazia uma caixa infinita na mão. Dentro da caixa repousavam uns magníficos, e igualmente infinitos, mocassins castanhos. A morte disse para o vendedor:
– São bonitos estes mocassins. Não tem em preto?
O vendedor, que se instalara naquela sapataria há mais de trinta anos e nunca antes atendera um cliente tão delicadamente melindrável, respondeu nervosamente:
– Com certeza. Estes sapatos em preto devem ficar-lhe a matar.
E desapareceu novamente em direcção ao armazém para voltar apenas alguns segundos depois com uma nova caixa infinita.
– Vamos então experimentar?, perguntou o vendedor à morte.
Mas a morte acabara de se lembrar que tinha a meia do pé esquerdo rota por causa de um joanete.
No dia seguinte, quase ninguém compareceu ao funeral do vendedor. Apenas a mãe, a mulher, os cangalheiros e o senhorio da loja que na semana seguinte colocaria uma placa na montra, dizendo simplesmente: «Aluga-se.»
Alguns meses mais tarde, a sapataria transformou-se numa loja do chinês.