Terça-feira, Outubro 04, 2005

Hotel (quarto nº2)

Um cão, ao atravessar a estrada, pensou na morte. Nesse preciso momento foi atropelado por um homem que também pensava na morte. Sobreviveu, com uma pata partida, e foi adoptado pelo homem.
Nessa noite, ao acender a televisão, o homem pensou novamente na morte e lembrou-se do cão. Decidido a tomar uma bebida antes de dormir, dirigiu-se à cozinha. Ao descer as escadas tropeçou no cão, que dormia no sétimo degrau e sonhava com a morte. Sobreviveu, com uma perna partida, e foi adoptado pelo cão.

Odores

O cheiro a escasso, ensaio sobre...
A química da atracção: quem confessou gostar do meu cheiro.
Os cheiros de que eu gosto.
O terrível cheiro a amoníaco no atelier de arquitectura do meu irmão.
O cheiro metálico das pistas de carrinhos eléctricos na feira de Março.

Domingo, Outubro 02, 2005

Dançar no deserto

Era uma vez uma menina que gostava de dançar no deserto. O deserto é uma terra grande, como uma praia com dunas, mas sem o mar. Na verdade, o deserto parece o mar, com ondas e vento e sol de dia e estrelas à noite, mas em vez de água é feito de areia, e em vez de barcos e navios passam por ele caravanas com camelos. O deserto é o melhor sítio para quem gosta de dançar no mar, pois ali ninguém tem que temer ir ao fundo, basta caminhar e correr e rebolar-se pela areia. Sabes como é que esta menina aprendeu a dançar no deserto? Foi assim: todos os dias ela subia para uma duna, isto é, para cima de um comprido monte de areia dourada, abria os braços, esperava que o vento começasse a soprar, e quando o vento soprava mais forte, ela deixava-se ir com o sopro. Aos poucos, ela aprendeu que o seu corpo podia ser como o vento, podia correr pelo mundo. Se ela quisesse, se respirasse muito forte, o vento entrava pelo nariz, enchia-lhe os pulmões e podia então voar por cima da terra da areia, como num sonho. Foi o que esta menina fez. Passou a dançar no mar do deserto.