Sexta-feira, Outubro 14, 2005

Protagonista e Antagonista

Hoje contei a história da Capuchinho Vermelho aos meus alunos timorenses. Poucos a conheciam, o que não deixa de ser surpreendente. E também foi surpreendente a forma apaixonada como escutaram a história. Contei-a exactamente com todos os ingredientes de crueldade, como manda Betlheim (aqui em Timor não posso confirmar se se escreve assim). No final, o lobo foi esventrado pelo caçador, com a conivencia da menina perversa, tiraram a avó de dentro do bicho, toda húmida, claro, e enfiaram um monte de pedras no bucho lupino. Sabem o que aconteceu ao lobo?
Os meus alunos compreeenderam perfeitamente a diferença entre protagonista e antagonista, o que não é exactamente o mesmo que a diferença entre o bom e o mau. Ora, a primeira diferença é realmente indispensável para interpretar textos literários. A segunda é mais útil para exercer certas formas de domínio.

Terça-feira, Outubro 11, 2005

Díli

Díli continua uma cidade suja, talvez até um pouco desanimada. O Palácio do Governo marca a frente de mar e o Estado (o mais jovem do mundo). Adiante, o Hotel Timor sinaliza a presença estrangeira, maioritariamente portuguesa. Os timorenses que aí entram são apenas os funcionários do próprio hotel. A avenida marginal está arranjada, é certo. A paisagem sobre a baía é extraordinária, com a ilha de Atauro a impôr-se no horizonte. Mas entre a avenida marginal e a outra avenida que leva ao aeroporto, ficam os bairros de um outro Timor: o da fome e da malária e do dengue.
Há homens que vagueiam pelas ruas de Díli. Um velho, quase só ossos, tem os olhos perdidos numa outra dimensão. Eu vi-o parado a olhar um prato de comida, a pele tisnada, a boca como uma fenda fechada. O rosto era o de um lagarto, um velho To-Ke, que se alimenta de insectos e vive sabiamente entre o sol e a sombra.

Segunda-feira, Outubro 10, 2005

To-Ke

To-Ke (nao sei se se escreve assim) é um lagarto de tamanho razoável que habita na parte do mundo em que me encontro. Comecei a escutá-lo em Bali, na Indonésia e continuei a ouvi-lo em Díli. A voz deste lagarto começa com um matraquear rápido que depois se torma em "ke! tó... keeeee". Diz a lenda timorense que, ao cair sobre a pele nua de um homem, se lhe agarra pela vida fora, numa perfeita simbiose. Parece que a lenda tem qualquer coisa de verídico: as patas do To-Ke apresentam a estranha propriedade de fundir molecularmente os tecidos. Segundo os timorenses, alguém "infectado" pelo lagarto só tem uma maneira de se livrar dele: esperar que uma mulher grávida lho extirpe da pele.