Sexta-feira, Outubro 21, 2005

O Corpo sem Órgãos

Deleuze (e Guattari) fala no "Corpo sem Órgãos". O masoquismo é o método por ele indicado para descobrir em si mesmo o CsO. A redução do CsO à experiência de uma certa qualidade de dor e ao acto de costurar o corpo é isso mesmo: uma redução. Mas a experiência do CsO não é exactamente redutível ao sado-masoquismo. Um estado de paixão pode por exemplo ser uma oportunidade de experimentar o CsO. Não há nada de transcendente nisto; há sim um estado de imanência absoluta. Uma ampliação do corpo na natureza e vice-versa. Uma ampliação do meu corpo no corpo de outra pessoa e uma ampliação do corpo da outra pessoa no meu próprio corpo. É disto que se trata também: do corpo, não só como espaço de identidade, mas antes como lugar da partilha e neste sentido como consciência de identidade e da não-identidade.

Terça-feira, Outubro 18, 2005

Hotel (quarto nº 86)

O plano era simples: entrar numa livraria e fazer-se passar pelo fantasma de Jorge Luis Borges. Então, se tudo corresse bem, daria uma pequena palestra acerca de poesia inglesa (o que sempre era melhor que falar sobre o mesmo assunto naquela sala de aula desde há quarenta e dois anos) e no fim autografaria alguns livros. Os dois únicos problemas eram: a) falar espanhol; b) fingir-se cego. Resolveu o primeiro problema tirando um curso intensivo à distância e vendo três horas por dia de telenovelas mexicanas sem dobragem, mas quanto ao segundo foi mais complicado. Começou por fazer pequenos ensaios, saindo à rua de óculos escuros e bengala. No primeiro dia uma criança veio perguntar-lhe por que usava relógio. No segundo, foi surpreendido de olhar fixo num belo par de mamas. No terceiro, resolveu entrar na primeira livraria que surgisse e fazer-se passar por Gabriel Garcia Marquez.

Segunda-feira, Outubro 17, 2005

A febre da terra

Aqui é fácil ter-se a impressão de que se mora sobre o dorso de um animal. Em qualquer instante, ele pode agitar-se, mexer-se. Em todos os momentos ele respira. Aqui a terra tem um hálito próprio. O hálito de um animal, de um réptil, de um longo e adormecido lagarto. Aqui, os meus sonhos são tocados pelas zonas reptilianas do cérebro. Há uma febre em cada gesto. Uma gota de suor entre os neurónios. Aqui, as sinapses são mais febris.