Por um anti-blog
Tenho uma amiga que me disse um dia: “eu gostava de poder ser apenas leitora, não ter que escrever para poder disfrutar inteiramente das palavras dos outros”. Pode ser que esta perspectiva pareça cómoda ou pelo menos passiva. Mas, na verdade, é injusto pensá-lo. Com efeito, é necessário ser-se criador para se ser leitor ou espectador. Só é capaz de ler (e de ver) quem consegue (re)criar o percurso que o criador original oferece. Por outro lado, talvez hoje exista um excesso de actividade, que se traduz na ideia perversa de que criar é produzir objectos “literários”, “artísticos”, “musicais” e etc., e dá-los a ler/ver/ouvir ao maior número possível de pessoas. Os “blogs” são um pouco isto; partem do pressuposto de que o(s) respectivo(s) autor(es) tem coisas importantes para comunicar ao comum dos mortais. Inclusivamente este “nu”… Andamos todos a deixar mensagens sobre as quais alguns amigos pousam displicentemente os olhos. Queremos muito comunicar enquanto emissores, mas raramente nos resignamos ao papel de receptores. Há certamente explicações para isto, para esta perversão, a começar pela agressividade da própria informação que nos martela os sentidos e a acabar na comunicação publicitária que joga sobre o desejo com a sedução mais vulgar.
A partir das ideias anteriores, penso regularmente em acabar com este blog de que sou administrador. Na verdade, gostava de ser capaz de inventar um anti-blog: um lugar onde fosse possível escutar mais do que falar. Por exemplo, um lugar onde fosse possível “escutar” as núvens que passam no céu, ou uma lente para “cheirar” os grãos de areia que esvoaçam junto à rebentação das ondas, ou para “ouvir” o crescimento de uma semente na terra húmida. O mais próximo (consultado há bastante tempo) que encontrei, foi um site habitado por uma cafeteira sobre uma mesa, que de vez em quando uma mão inclinava para verter um líquido escuro (café?) numa chávena. Hoje, já ninguém constrói sites assim. Mas se alguém souber de outros similares, por favor, indique-os em comentário.
A partir das ideias anteriores, penso regularmente em acabar com este blog de que sou administrador. Na verdade, gostava de ser capaz de inventar um anti-blog: um lugar onde fosse possível escutar mais do que falar. Por exemplo, um lugar onde fosse possível “escutar” as núvens que passam no céu, ou uma lente para “cheirar” os grãos de areia que esvoaçam junto à rebentação das ondas, ou para “ouvir” o crescimento de uma semente na terra húmida. O mais próximo (consultado há bastante tempo) que encontrei, foi um site habitado por uma cafeteira sobre uma mesa, que de vez em quando uma mão inclinava para verter um líquido escuro (café?) numa chávena. Hoje, já ninguém constrói sites assim. Mas se alguém souber de outros similares, por favor, indique-os em comentário.


3 Comments:
Foi talvez num filme de Woody Allen, ou se calhar num outro mais banal, que se dizia que, ao invés de ouvirmos, estamos na verdade à espera que o outro acabe para que seja a nossa vez de falar.
Eu li essa frase no Fight Club, mas, agora que penso nisso, também pode ter sido realmente num outro filme mais banal...
Daniel, apesar de saber que não bem disto que andas à procura, recomendo este site: http://www.hoogerbrugge.com/
Creio que foi no "Sea of Love" com o Pacino e a outrora interessante Ellen Barkin.
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