Uma empresa portuguesa em 2075
Ao encomendar um contentor com artefactos de Lira-4, Américo Sestelo sabia que não estava a seguir completamente aos regulamentos de importação da UE. A encomenda era de artefactos nativos de humanos de Lira, que incluiam materiais biológicos exóticos. Américo preparara um relatório detalhado explicando que os materiais biológicos citados eram apenas casulos biológicos desactivados de lirões, as ensimesmadas criaturinhas felpudas que passavam por metamorfoses no distante planeta. Porém, os eurocratas de Bruxelas não tinham engolido a explicação. Assim, Américo tivera que recorrer aos cripto-circuitos asiáticos. Oleara as mãos de um punhado de funcionários da alfândega e das finanças, e arranjara no mercado negro uma caixa de puros havanos para Ho, o diplomata de contacto, no entreposto orbital de Nova Taiwan. Américo, que era um tipo certinho, não o fez de ânimo leve. Mas, a sobrevivência da Sestelo Lda. dependia de uma manobra daquela espécie. Durante os dias em que a transacção devia acontecer, Américo esteve agitado. Tratou-se com uma dose redobrada de ciber-sexo e a humilhação do velho Almeida, o funcionário da empresa que tratava dos pagamentos. Finalmente, a encomenda chegou. Pela porta do cavalo, por assim dizer. O problema agora era o cheiro dos casulos dos lirões. Fediam. Américo alugou uma câmara frigorífica na antiga zona da docapesca e começou a preocupar-se com a distribuição do produto. O normal seria as vendas a retalho processarem-se através da net, mas Américo receava que a os ciber-polícias o apanhassem na curva. Assim, teve que recorrer aos contactos das Avenidas Novas e fazer a coisa, digamos, manualmente. Enquanto isto acontecia, aconteceram em Lisboa diversas quebras de energia: uma derivada de um atentado perpetrado pelos autonomistas da Madeira, duas por causa da incompetência dos funcionários da central e uma quarta decretada pelo governo como medida para poupar energia. Em consequência, as câmaras frigoríficas da docapesca estiveram desligadas intermitentemente durante cerca de 43 horas. Quando Américo levou, pela calado da noite, os vendedores das Avenidas Novas à câmara frigorífica, era tal o cheiro, que os homens, embora habituados a duras condições de trabalho, se recusaram a fazer o serviço sem as devidas contrapartidas. Mais, se ele, Américo, não cumprisse com o combinado, eles, os distribuidores, denunciá-lo-iam às competentes autoridades. Américo, que estava praticamente falido, pediu um empréstimo para pagar esta tropa fandanga. Para conceder o empréstimo, o banco exigiu uma auditoria à Sestelo Lda. Sabendo de antemão que a coisa não ia funcionar, Américo reuniu os tostões que sobravam na empresa, comprou uma passagem de avião para o Brasil e passou a vender pastelinho nas praias do nordeste.


1 Comments:
mário-henrique leiria também escreveu umas coisas divertidas há uns anos atrás. Apenas mais absurdas, considerando que esta empresa parece demasiado realista.
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