Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

Caricaturas de Maomé

As caricaturas de Maomé, publicadas no jornal dinamarquês Jyllands Posten, em setembro do ano passado, têm funcionado como uma bola de neve. Na verdade, a metáfora não será tanto a da neve, mas antes a da palha a arder se se considerarem as manifestações violentas que têm suscitado. Na Europa, uma boa parte da discussão trava-se entre os que privilegiam o valor da liberdade da imprensa - indispensável nas democracias ocidentais - e aqueles que privilegiam o respeito pelas diversidades culturais e religiosas. Os primeiros entendem que não há que pedir desculpa nem lugar para auto-censuras; os segundos entendem que há que ter a sensatez conveniente para evitar agredir sensibilidades; enfim, impedir males maiores, a saber, novos conflitos. Ambos eximem argumentos e ambos, à sua maneira, têm razão. Pessoalmente, inclino-me para o lado dos primeiros. Mas, independentemente da minha preferência, há que perceber que esta discussão acontece apenas no chamado mundo ocidental. Ou seja, só no mundo ocidental é possível escolher e sobretudo discutir acerca de qual a atitude correcta.
Em segundo lugar, que eu saiba, ainda ninguém considerou um outro direito, este sim, verdadeiramente universal: O DIREITO AO RISO. Este é um outro ângulo para avaliar o que se passa. Será que o sagrado exige a exclusão do riso? Será que não nos podemos rir de Jesus Cristo e de Maria Madalena e do Papa e de Maomé e de Buda e do Dalai Lama e da Nossa Senhora de Fátima? Será que não há lugar para um filme como "A Vida de Brian"? Não é a ideia de sagrado que é má, mas sim a definição do sagrado pela exclusão do riso. Pessoalmente, acredito sinceramente que Jesus Cristo era um homem que se ria (e que chorava, e que sorria, e que manifestava sentimentos...), como todos os homens. Embora saiba muito pouco acerca de Maomé, estou certo que o profeta se ria (e chorava e sorria e etc.). Viva pois o riso, o mais humano dos comportamentos humanos. E viva especialmente o riso inteligente, o riso que desarma e que coloca tudo na sua dimensão conveniente, que é, muito frequentemente, a da mais completa insignificância.