Hotel (quarto nº3)
Um dia, ao voltar para casa do trabalho, dei por mim sentado dentro do carro estacionado em frente ao muro com os faróis acesos. Fiquei a olhar os dois anéis de luz durante algum tempo até começar a ouvir distintamente uma voz. A voz deu-me instruções muito simples: cavar um buraco com oito metros cúbicos de dimensão. Acendi um cigarro e deixei-me ficar ali sentado durante mais alguns minutos depois da voz se ter calado. Por fim, entrei em casa como se nada tivesse acontecido.
No dia seguinte, algo semelhante me aconteceu quando estava a meter a chave na fechadura da porta para entrar e dizer boa noite à mulher e aos filhos. A voz repetiu as instruções duas vezes e perguntou-me se tinha dúvidas. Respondi-lhe que não e quando dei por mim, já dentro de casa, tinha a mulher a perguntar-me: não, o quê?
No terceiro dia comecei a cavar o buraco. As instruções eram realmente simples: no meio do meu quintal, por trás da casa, devia cavar um buraco com oito metros cúbicos de dimensão e esperar. Esperar o quê, não sei - esperar apenas. Foi o que fiz durante cinco dias. Telefonaram-me do trabalho logo ao fim do primeiro. Queriam saber porque faltara, respondi-lhes o que a voz me mandou: nunca mais vou voltar. A mulher perguntou-me o motivo do meu comportamento, respondi-lhe que era preciso esperar. Esperar o quê, perguntou ela - esperar apenas.
Quando acabei de cavar o meu buraco, anunciei: é este o meu lugar no mundo. A voz tinha-me ditado estas exactas palavras. Nessa noite dormi enrolado dentro do buraco. Choveu e o buraco ficou cheio de água. Constipei-me. No dia a seguir chegaram os pais da minha mulher e disseram que a minha loucura sempre lhes parecera latente. Levaram a filha deles e os meus filhos também. Nunca mais os vi.
Fiquei pior da constipação e esta transformou-se numa pneumonia. Passava os dias enrolado dentro do buraco a tossir. Estava sujo e frágil. Bebi muita água enlameada e comi raízes.
Chegaram dois homens fardados e perguntaram-me o que fazia ali deitado. Não lhes respondi. Insistiram durante algum tempo e depois um deles foi chamar um médico. O médico desceu ao buraco e auscultou-me. Disse-me que morreria em breve se não saísse do buraco em que me tinha metido. Não lhe respondi. O médico foi chamar um padre. O padre chegou e trazia consigo a palavra. Perguntou-me se conhecia o rosto de Deus. Não lhe respondi. O padre passou-me a mão na cabeça e rezou. Disse que rezava pela minha alma. Não lhe respondi.
Chegaram os jornalistas e quiseram falar comigo. Não lhes disse nada. Filmaram e fotografaram tudo o que quiseram e montaram acampamento em redor da casa. Ouvi as suas carrinhas a irem-se embora ao fim de quatro dias. Nunca mais apareceram.
Uma tarde, estando eu às portas da morte, caiu uma bola dentro do buraco onde eu me enrolava como um verme e apareceram três crianças que ficaram a olhar o meu corpo debilitado e transparente. Perguntaram-me porque estava eu ali deitado. A voz não me disse se devia ou não responder-lhes, por isso resolvi responder. Com alguma dificuldade, disse-lhes que aquele era o meu lugar no mundo. Eles não me responderam. Expliquei-lhes que uma voz me dissera que todos precisamos do nosso espaço, um espaço inviolável e definitivo. Não devem ter percebido mais do que eu próprio percebi. Uma das crianças, um rapaz com suspensórios, desceu ao buraco e agarrou a bola. Antes de se ir embora, porém, perguntou-me qual era a sensação. Não percebi a pergunta e não lhe respondi. Foram-se os três embora.
Hoje, ainda vivo, ponho-me a pensar por que raio cavei eu este buraco e chego à conclusão de que realmente não sei. Mastigo um naco de terra e sinto-me só. Penso na mulher e nos filhos. Penso no trabalho e no carro. Penso na minha vida e na dos outros.
É então que, inesperadamente, me surge um anjo e traz na sua boca a mesma voz que me mandou cavar um buraco com oito metros cúbicos de dimensão. Recolhe as suas asas brancas às costas, atenua a luz do seu rosto para que eu possa abrir os olhos e diz:
- Tu foste escolhido.
Não digo nada porque estou assustado e convencido de que vou morrer.
- Não tenhas medo, diz o anjo, a tua vida será longa.
Toda a minha vida pensei que morreria jovem. Por isso casei-me cedo, tive filhos cedo, enclausurei-me cedo num emprego que lentamente me consumiu toda a capacidade de espanto.
- Levanta-te deste buraco e caminha pelo mundo, disse o anjo.
Foi o que fiz. Levantei-me com dificuldade, subi o escadote de madeira pelo qual descera e rastejei desde o buraco até ao interior da casa. Aí, tomei banho, bebi um copo de água e comi uma fatia de pão antes de perder os sentidos.
Quando voltei a mim, estava deitado no chão da cozinha completamente nu. A casa tinha passado tanto tempo sem habitantes que parecia estranhar a minha presença. O anjo desaparecera. A voz, no entanto, trazia-me novas instruções: caminha pelo mundo, visita oito mulheres e promete-lhes que um dia hás-de voltar. Levantei-me do chão da cozinha e fui-me deitar na cama. Dormi durante muito tempo e acordei com alguma energia. Comi normalmente e bebi muita água. Parecia que nunca estivera doente.
Apanhei o primeiro comboio que partia da estação e levava no bolso todo o dinheiro que levantara previamente do banco. Nenhuma bagagem.
No primeiro país, prometi que um dia havia de voltar, no segundo prometi que um dia havia de voltar, no terceiro fui preso por vadiagem e meteram-me dentro de um buraco enlameado. Senti-me como se estivesse em casa, mas ainda me faltavam cinco mulheres. Tentei fugir mas apanharam-me e bateram-me com paus. Taparam as grades do buraco com tábuas e não vi nenhuma luz durante o tempo que demora a assobiar a melodia do vento quatro mil vezes. Quando me destaparam, a entrada da luz nos meus olhos foi tão violenta que ceguei. Quando o anjo me visitou pela segunda vez, não pude vê-lo mas senti a sua presença. Ele disse:
- Está feito.
E libertou-me.
Os anos passaram e os meus filhos devem ter crescido. Talvez a minha mulher se tenha casado novamente. Talvez tenha gerado mais filhos sem mim. O meu carro deve ter sido roubado. A casa deve ter sido vendida e talvez tenham aproveitado o buraco para fazer uma piscina. Alguém deve ter ficado com o meu emprego dois ou três dias depois de ter dito que nunca mais lá voltava.
Agora vivo no meio da floresta completamente isolado, tenho uma horta que me dá todo o alimento de que preciso e bebo água de um riacho que corre ao lado da cabana que construí. Não me lembro do meu nome à falta de ouvir alguém pronunciá-lo. Os meus olhos captam sombras luminosas ao longe. Sei que o anjo voltará e é por isso que guardo uma faca debaixo da almofada. De tempos em tempos, oiço gargalhadas por entre as árvores. Sei que o anjo voltará.


1 Comments:
Caro amigo: Não penses que estás sozinho- todos vivemos num buraco. Mais ou menos fundo, mais ou menos confortável, são todos parecidos.
Um abraço. Bruno.
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