domingo, março 05, 2006

Frida e o público

A exposição de Frida Kahlo, no CCB, foi inaugurada no passado dia 24 de Fevereiro. As peças- 26 ao todo - vêm do Museu Dolores Olmedo Patiño; lá estão nomeadamente "A Coluna Partida"e o Auto-retrato com macaco. Lá está também a pintura "Unos cuantos piquetitos", que tem a particularidade de fazer extravazar as pinceladas (que representam as manchas de sangue das facadas) para a primeira moldura de madeira.
As peças expostas têm qualidade variável e, eventualmente, alguns dos desenhos têm interesse meramente biográfico. Aliás, a exposição funciona muito mais de um ponto de vista biográfico, do que propriamente enquanto mostra consistente da obra pictórica da artista mexicana.
Na verdade, a obra de Frida Kahlo é globalmente um sinal de um anti-anonimato. A sua vida, o contexto em que decorreu, as relações com Diego Rivera, algumas possíveis mistificações sobre as aventuras amorosas de ambos, os envolvimentos políticos com os ideiais comunistas (aliás comuns a uma parte dos meios intelectuais e artísticos da América do sul) e, sobretudo, a doença e o dor de Frida, são tão responsáveis pela projecção artística da pintora quanto a sua real produção.
Aqueles aspectos da vida pessoal, que de resto têm sido tratados no cinema e na literatura, são certamente muito responsáveis pela afluência do público. Eventualmente tanto ou mais responsáveis do que a obra em si mesma.
Com efeito, no segundo fim de semana da exposição, a fila das pessoas interessadas era verdadeiramente surpreendente no morno panorama dos circuitos expositivos nacionais. A exposição, organizada em 4 salas, obriga frequentemente a que os espectadores sigam passo a passo, uns atrás dos outros. É interessante verificar como as pessoas se entretêm a ler as legendas relativamente detalhadas (sobretudo aquelas que remetem para aspectos particulares da saúde de Frida). Creio mesmo que o fazem com maior gozo do que olham para as telas da artista. Esta consideração nada tem, porém, de crítico relativamente aos movimentos dos olhares dos espectadores. Na verdade, as opções de cada espectador denunciam porventura uma das questões recorrentes na arte contemporânea: o do valor carnal das produções artísticas.
Neste sentido, Frida foi - e continua a ser - uma artista profundamente carnal.